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Após 76 anos, lavrador tem luz em casa

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 3 min

É ainda madrugada quando o lavrador aposentado Domingos Antônio Torres acorda e começa a se preparar para o dia de trabalho em seu sítio, no município de Presidente Alves. Seus passos são iluminados pela velha lamparina, que o acompanha até a chegada da luz do dia.

O lavrador tem 76 anos e nunca teve acesso ao serviço público de energia elétrica. Essa realidade, entretanto, começou a mudar na última terça-feira, depois que a instalação foi realizada em sua propriedade rural, dentro das ações do programa Luz para Todos. Neste final de semana, o filho do lavrador faria os últimos reparos elétricos necessários na casa para a utilização do serviço.

Sem geladeira ou qualquer outro eletrodoméstico, a vida de Domingos sempre esteve desplugada dos avanços tecnológicos. Numa casa simples de madeira, com quatro cômodos, ele vive na companhia de seus gatos e cachorros, depois da morte da mulher, há cerca de seis anos. Recentemente, o lavrador teve seu radinho de pilha roubado - único equipamento eletrônico que o conectava às informações do “mundo lá fora”.

No sítio em que vive há cerca de 40 anos, os alimentos preparados são consumidos no próprio dia ou guardados por pouco tempo no forno do velho fogão. Na época de calor, o lavrador toma banho na cachoeira e no frio aquece a água no fogão à lenha.

No interior da casa de Domingos não há banheiro ou água corrente. Com a chegada da energia elétrica, o lavrador pretende instalar um motor para bombear água de um poço até a residência. Também planeja adquirir uma máquina trituradora para preparar ração para os animais do sítio.

Na propriedade rural, o lavrador cultiva mandioca e abóbora, além de criar alguns animais, como galinhas e vacas. A rotina solitária se repete todos os dias. Por volta das 20h, ele se recolhe no quarto e aguarda o sono. “Eu deito e fico quieto. Eu não tenho medo de nada, porque tenho muita fé em Deus”, diz Domingos, aparentemente acostumado com a escuridão.

“Meus filhos queriam me levar para a cidade (Bauru) mas eu não quero. Gosto mais daqui”, afirma o lavrador, que faz questão de mostrar a foto da mulher e dos filhos afixada na parede.

Domingos conta que espera pela energia elétrica há muito tempo, mas só agora foi possível ter acesso ao recurso de forma gratuita. “Com a energia, a vida vai melhorar. Eu posso fazer comida à noite e guardar na geladeira, junto com os remédios (dos animais). Agora também vou colocar um chuveiro para tomar banho quente. Já televisão eu não ligo de ter”, diz.

Nos finais de semana, Domingos recebe a visita dos filhos e netos. Com a chegada da luz elétrica, ele também demonstra satisfação por poder oferecer mais conforto aos esperados visitantes.

A espera

Em poucos dias, Aparecida Fátima Fabrício, 50 anos, também terá acesso à energia elétrica em sua propriedade rural em Arealva.

A dona de casa conta que sua família nunca teve condições de arcar com os custos da instalação. “Faz tempo que eu queria isso e fui até atrás de financiamento. Andei discutindo com a minha mãe porque eu queria que ela vendesse um alqueire de terra para pôr luz aqui. Nós fizemos um orçamento há uns quatro anos e ficava em R$ 7 mil (o valor da instalação)”, diz.

A dona de casa espera ter em breve a casa iluminada para poder costurar e dar continuidade aos afazeres domésticos no período noturno.

O pesquisador Marcelo Aparecido Pelegrini, do Centro de Estudos em Regulação e Qualidade de Energia da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), lembra que o acesso à energia elétrica é um serviço básico.

“A gente costuma dizer que as pessoas que ainda não têm energia não estão nem no século passado, estão no século retrasado. Seguramente, uma pessoa que hoje não tem energia elétrica está desconectada do mundo moderno”, diz.

De acordo com o pesquisador, nos países desenvolvidos, esse problema de exclusão foi resolvido há cerca de 50 anos.

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