Um misto de euforia e emoção tomou conta da Secretaria das Administrações Regionais (Sear) depois da conclusão da primeira etapa de um projeto-piloto de pavimentação a baixo custo realizado no Núcleo 9 de Julho, região oeste da cidade. O próprio prefeito Tuga Angerami (PDT), que visitou as obras há duas semanas, classificou a iniciativa como uma resposta “criativa e prática” à falta de recursos do município.
O projeto de calçamento no bairro prevê a implantação de pedras sextavadas à base de cimento como alternativa à tradicional pavimentação com asfalto. Só nas quatro quadras que serão feitas no Núcleo 9 de Julho, serão colocados 6.200 bloquetes de 13 quilos cada, que foram fabricados pela prefeitura em parceria com o Instituo Penal Agrícola (IPA). De acordo com a Sear, o valor dos bloquetes por metro quadrado é próximo a um terço dos custos do asfalto comum.
Na semana passada, a Faculdade de Engenharia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru analisou tecnicamente e aprovou a qualidade dos bloquetes - o laudo aponta que os bloquetes, testados de acordo com as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), estão adequados para vias de tráfego leve.
Os reeducandos do IPA já estão produzindo bloquetes sextavados para calçamento de ruas e avenidas que já tenham galerias. Na parceria, o IPA cede a mão-de-obra. Como contrapartida, os reeducando abatem um dia de pena para cada três trabalhados.
O material - cimento, pedra e areia - está sendo fornecido pela Secretaria de Obras e também pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE), que repassa a areia retirada nos trabalhos de desassoreamento do rio Batalha. A Unesp entra com a assistência técnica no controle de qualidade.
O titular da Sear, Nelson Fio, classificou a experiência dos bloquetes como “excelente” e já faz planos para viabilizar o projeto em escala industrial - antes disso, outros bairros serão contemplados com quadras pavimentadas dentro do projeto-piloto.
“Vou tentar com o Edmundo (Albuquerque, secretário de Finanças) um aumento na verba da Sear para o projeto se tornar uma realidade em 2006”, diz Fio. “Estamos trabalhando com o orçamento do governo passado e a verba da Sear é baixa. Para o ano que vem, será o ‘nosso’ orçamento e já tem vereadores que vão pedir uma verba maior para a Sear dar andamento a este projeto”, garante o secretário.
Mais que uma alternativa econômica para o crônico problema de ruas de terra na cidade, Fio também acredita ser possível transformar o projeto numa espécie de frente de trabalho para as comunidades mais carentes.
Para isso, o secretário sugere que, através das associações de moradores, os bairros se mobilizem para, elas próprias, produzirem os bloquetes. “Só é preciso uma mesa vibratória e uma betoneira. Dá para ‘correr atrás’ de recursos, montar as minifábricas e se tornar fornecedor do material (bloquete) para a prefeitura”, simplifica Fio. “Seria uma forma de dar emprego às pessoas e ainda beneficiar o bairro com uma melhoria urbana”, completa.
Bloquete “comunitário”
O entusiasmo com o projeto é tamanho que Nelson Fio chega até a antever o desenvolvimento de um programa como o “bloquete comunitário”, no qual comunidades se cotizariam para pagar os custos da instalação do pavimento.
Ele diz, inclusive, que moradores de alguns bairros como Vila Zillo e Vila Engler já o teriam consultado sobre esta possibilidade. “Como o custo (do pavimento com bloquete) é um terço em relação ao asfalto, tem bairro em que as pessoas querem pagar”, diz.
O secretário sabe, porém, que qualquer iniciativa neste sentido (cobrança do munícipe) terá de ser precedida da elaboração de um projeto para aprovação pela Câmara. Segundo ele, o Departamento Social da Sear, em conjunto com o corpo jurídico da prefeitura, já estaria estudando formas de viabilizar a idéia. “O objetivo principal do projeto-piloto era saber se a experiência daria certo. Agora, com os resultados positivos, precisamos viabilizá-lo”, diz.
No embalo do entusiasmo, Fio chega até a apostar num ideal de partilhamento das riquezas pouco provável de acontecer. “Podíamos cobrar dos mais ricos. Aqueles que têm condições poderiam fazer um ato humanitário e subsidiar os que não podem (pagar)”, sonha o secretário.
Envolvimento
Além dos bons resultados “técnicos” da iniciativa, o secretário Nelson Fio destacou como principal vitória do projeto-piloto dos bloquetes o inesperado envolvimento da comunidade nos trabalhos de pavimentação.
Previsto para ser executado por quatro servidores da Sear, devidamente amparado por máquinas de terraplenagem e compactação, o serviço acabou ganhando o reforço dos moradores da rua Cândido Mariano da Silva Rondon, a primeira a receber o projeto. “O que mais entusiasmou foi ver a população ajudando”, emociona-se Fio.
A experiência, inesperada para o secretário, não é novidade para os moradores do bairro, que surgiu justamente de um trabalho de mutirão depois que um grupo de moradores do Parque Jaraguá teve suas casas destruídas por uma forte chuva, em 1983.
A dona de casa Maria Pereira Lima, 63 anos, foi uma das moradores da rua Cândido Rondon que participou dos dois mutirões - o que ergueu o bairro há mais de 20 anos e o que recentemente assentou os bloquetes nas ruas de terra. “É ótimo poder trabalhar junto com os vizinhos pelo nosso bairro”, avalia. E ela adianta que, mesmo tendo a rua onde mora já totalmente pavimentada, vai ajudar nos trabalhos nas vias que ainda receberão o bloquete.
Apesar da pavimentação ter sido “inaugurada” há pouco mais de uma semana, Lima já notou a diferença da realidade vivenciada durante os mais de 20 anos em que mora no núcleo. “A limpeza da minha casa melhorou 100%”, conta. A dona de casa acredita ainda que o pavimento com bloquetes é melhor que o asfalto. “Pelo menos este aqui não vai ‘descascar’ com a primeira chuva”, aposta.