Ser

O boteco também é delas

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 5 min

Sexta-feira, chope gelado e porção de petiscos: o convite típico de um tradicional happy hour oferecido em diversos pontos da cidade. Por volta das 18h, elas começam a chegar, em pequenos ou grandes grupos, e se acomodam nas mesas. Elas, isso mesmo. As mulheres estão, cada vez mais, “invadindo” bares e botecos da cidade, locais que há algumas décadas eram tidos como redutos masculinos.

De uns tempos para cá, os homens estão perdendo a exclusividades dos bares e ganhando a companhia delas. Tirando algumas paqueras, no geral a convivência entre o time dos “bolinhas” e das “luluzinhas” é ótima e reflete o clima animado desses locais.

“As mulheres perderam um pouco a vergonha de freqüentar ambientes que antigamente eram, digamos, masculinos. É comum vê-las combinando de sair do trabalho e tomar uma cerveja, que é o nosso caso”, diz a relações públicas Bianca Lemonica, 22 anos, enquanto participava de um happy hour com amigas em um boteco de Bauru na última sexta-feira.

Ela conta que a atividade se tornou uma espécie de compromisso marcado para as sextas-feiras ou sábados à tarde. Suas amigas, a estudante Danieli Rosa, 25 anos, e a atendente Samantha Ferrazoli, 24 anos, concordam. “No final do expediente, já estamos armando alguma coisa”, conta Samantha.

Segundo Bianca, o bar, muitas vezes, tem função terapêutica. “Quando há alguma comemoração ou tem aquele dia muito estressante, uma olha para outra e diz: Vamos para o bar?”, revela Bianca. “Lá podemos conversar, contar coisas, trocar opiniões e relaxar”, explica.

Esse clima descontraído atrai o trio formado pela bancária Ana Maria Zorzella, a funcionária pública Eloize Quintana e a dentista Angela Xavier. Amigas de longa data, elas costumam se reunir às sextas-feiras, após o expediente, em um boteco localizado no Altos da Cidade.

“Os homens sempre fizeram isso e é ótimo. No bar, relaxamos, conversamos, tomamos uma cerveja, é uma delícia. Antigamente, as mulheres achavam tão ruim os homens irem para os bares, hoje elas vêm também”, diz Ana Maria.

“É um ambiente legal. Nós podemos ficar à vontade para conversar depois de trabalhar a semana toda”, observa Eloize. “Não é uma balada e algumas vezes, às sextas-feiras, nós ficamos cansadas para sair à noite”, acrescenta Angela.

Tomar um chope no bar também é rotina na programação semanal das estudantes Wanessa Camargo Spetic, 28 anos, e Emiliza Correa da Silva, 23 anos. Elas costumam marcar presença em um bar situado no Higienópolis às sextas-feiras e tardes de sábados. “Nos reunimos e tomamos umas cervejinhas. O bar tem som ao vivo, é animado, um ambiente legal”, diz Wanessa.

Reunião familiar

Se por um lado sentar na mesa de um bar para beber chope e conversar e é uma atividade prazerosa, melhor ainda se ela for praticada por mães e filhas. É o que pensam a agente de viagens Brunna Miccoli, 21 anos, e sua mãe, a professora Silvia Miccoli, 44 anos. Elas têm o hábito de se encontrar em botecos da cidade pelo menos uma vez por semana. “É um lugar neutro. Nos reunimos e colocamos o papo em dia”, conta Brunna.

“Costumamos vir direto do trabalho, principalmente numa sexta-feira, que estamos exaustas. Trabalho com educação física e termino as aulas da semana sexta-feira, às sete da noite. Aí ligo para minha filha e digo que estou indo. É quase uma rotina semanal”, diz Silvia.

De acordo com a professora, o hábito de freqüentar bares e botecos rompeu com alguns paradigmas de décadas passadas. “Tive uma criação bastante tradicional. Para o meu pai, se dissesse que iria a um barzinho, era muito complicado”, diz. “A minha geração rompeu com esse hábito machista e a Brunna pegou carona. Desde quando meus filhos eram pequenos, costumávamos ir a barzinhos com amigos. Hoje isso é um hábito natural”, observa Silvia.

Universitárias

O hábito feminino de se divertir em bares é uma herança dos tempos da faculdade, opina Bianca Lemonica. “Geralmente saíamos em grupinhos de mulheres e adquirimos essa cultura do bar”, diz. “Os estudantes, em geral, não têm muito dinheiro e freqüentam bares e não balada. Logo pegamos gosto pela coisa e percebemos que é um ambiente que dá para se freqüentar. Há famílias, pessoas com crianças, homens e mulheres”, acrescenta.

A universitária Thais Vieira, 26 anos, compartilha do mesmo hábito que Bianca. Ela e um grupo de quatro ou cinco amigas costumam sair para tomar chope em bares de Bauru aos finais de semana. “É um ambiente legal e eu gosto de lugares com muitas pessoas. Antes haviam mais homens do que mulheres, mas atualmente está se igualando”, aponta.

Embora não seja rotina, a “cultura do bar” também atinge as universitárias Jaqueline Serra Lopes e Ana Carolina de Mello, ambas de 23 anos. Elas contam que gostam de sentar na mesa de um bar localizado próximo à faculdade nos intervalos do curso. “Não é um hábito, mas quando estamos estressadas por causa de alguma aula, nós descemos para o bar”, diz Jaqueline.

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Paqueras

A presença feminina em bares e botecos pode incrementar ou facilitar as paqueras. “Quando há uma mesa só de meninos e outra só de meninas, por exemplo, é mais fácil uma aproximação”, destaca a estudante Thais Vieira.

As amigas e também estudantes Wanessa Camargo Spetic e Emiliza Correa da Silva concordam. “Quando há algum homem na nossa mesa, não é muito comum. Mas quando há só mulheres, aí somos bem assediadas”, conta Emiliza.

Porém, quando a paquera assume um ar desrespeitoso no bar, as mulheres são categóricas e não aprovam. “Muitos homens acham que mulher que está no bar é vulgar”, observa Wanessa.

“Dependendo do bar, ainda encontramos um certo preconceito”, concorda a a estudante Danieli Rosa. “Acontece de alguns homens darem uma olhadinha mais sacana, mesmo para testar porque as mulheres estão ali. Mas se a mulher assume a postura que está lá para curtir, conversar, tomar uma cerveja e comer uma porção, é tranqüilo”, explica.

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