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Paixão pela velocidade

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

O piloto bauruense Airton Antônio De Conti Daré, 27 anos, conhecido internacionalmente como Darezinho, é um dos grandes nomes do cenário automobilístico mundial.

Destaque na categoria de monopostos nos EUA, a Indy Racing League (IRL), nos anos 90, ele conta com a experiência nas pistas para comandar o kartódromo “Toca da Coruja”, inaugurado há cerca de um ano em Bauru.

O sucesso de sua trajetória é fruto de muita disciplina e dedicação, ingredientes cultivados ainda na adolescência. Darezinho - que nasceu em Jaú, em 9 de fevereiro de 1978, mas se mudou para Bauru na infância - sempre foi apaixonado por esportes de velocidade.

Começou disputando provas de jet-ski, aos 12 anos. Aos 17 anos, conheceu o kartismo por meio do ator Alexandre Frota, que costumava correr de carro em São Paulo. Em sua primeira disputa, conseguiu fazê-la em um ótimo tempo. Foi o estopim de sua carreira que, segundo ele, é pautada pelo aprendizado constante. “O piloto nunca pára de aprender”, afirma.

Seguindo sua própria cartilha, Darezinho superou as dificuldades provocadas por um acidente de carro sofrido em 2003, durante treinos da IRL, no circuito oval do Texas. Depois do ocorrido, o piloto voltou para Bauru, onde vivem sua esposa e seus pais, e experimentou participar da Stock Car brasileira em 2004.

Esse ano, passou a se dedicar apenas ao kartódromo, realizando campeonatos de carros e também de motocicletas. Além de difundir o automobilismo na cidade e região, Darezinho conta que o esporte é uma opção de lazer segura para os pés-de-chumbo, longe dos “rachas” urbanos.

A paixão de Darezinho pela velocidade - caracterizada pelo barulho dos motores e cheiro de borracha e combustível queimados na pista - entre outros assuntos, estão a seguir.

Jornal da Cidade - Como surgiu a idéia de criar um kartódromo em Bauru?

Airton Antônio De Conti Daré (Darezinho) - Quando sofri o acidente nos Estados Unidos perdi minha vaga na Fórmula Indy, onde eu corria, já que fiquei quase seis meses recuperando do acidente. Ao voltar para Bauru, queria continuar trabalhando com automobilismo. Aí surgiu a idéia de construir uma pista. No início era uma pista pequena, depois começamos a aumentá-la e o negócio ficou grande. Então resolvemos abrir para o público, mas a idéia inicial era só uma brincadeira para o pessoal da família mesmo.

JC - O kart sempre foi menos conhecido do que outros esportes, como o futebol. O kartódromo busca difundir o automobilismo em Bauru e região?

Darezinho - Não só o kart, como o motocross. A idéia é fazer um centro para tirar essa molecada que fica tirando racha na rua. O kart é um negócio muito mais barato do que um carro e a pessoa pode passar reto na curva que vai bater no pneu, não vai se machucar ou colocar ninguém em risco. Esse pessoal que fica tirando racha vai a um kartódromo e extravasa tudo num ambiente onde há ambulância e área preparada para a corrida. Por isso resolvemos divulgar o kart, fazendo campeonatos e trazendo eventos e pessoas da área para a cidade.

JC - Como você avalia o cenário automobilístico no Brasil?

Darezinho - Acho que quando vim para Bauru não havia muita história de automobilismo e kartismo. Lembro que conversava com o pessoal de Jaú, que era muito mais interessado nisso do que o pessoal de Bauru, acho que pela falta de ter um lugar, um kartódromo, uma pista ou eventos nesse sentido na cidade. Atualmente isso mudou bastante. Muitas pessoas querem andar de kart. Este mês, por exemplo, vamos fazer um campeonato entre alunos de uma academia de ginástica da cidade e a maioria deles começou a andar faz pouco tempo.

JC - Quem são suas referências no automobilismo?

Darezinho - Na época em que começei, o Senna estava ganhando corrida. O que eu gosto de ver não é apenas o piloto ganhar a corrida, mas a dedicação e a vontade que ele tem, caso do Senna. Disposição e a vontade de chegar lá, acho que é isso que precisamos admirar nas pessoas.

JC - Como teve início sua carreira?

Darezinho - O automobilismo sempre foi meu sonho, mas começei correndo com jet-ski, aos 12 anos de idade. Dentro da minha equipe de jet-ski estava o Alexandre Frota, que corria de carro. Uma vez ele me convidou para ir treinar em Interlagos, no carro dele. Fui para lá, gostei e fui até mais rápido do que ele no primeiro dia. Tinha 17 anos, começei a correr de carro e não parei mais. O jet-ski é uma área interessante, mas não é profissional. Corrida de carro é um emprego normal como qualquer outro.

JC - Você teve bons professores nessa época?

Darezinho - Quando fui correr na Indy League, nos Estados Unidos, tive como companheiro de equipe Cristiano da Matta, que foi corredor de Fórmula 1, e aprendi muita coisa com ele. Quando corri na Fórmula Indy, onde fiquei por quatro anos, todos os chefes de equipe deram algum ensinamento. Toda vez que fui para a pista, aprendi.

JC - Esse aprendizado constante é o diferencial de sua carreira?

Darezinho - Eu não tinha histórico de automobilismo. A maioria dos pilotos começou no kart, eu começei no jet-ski. Foi mais difícil para mim do que para o pessoal que já vinha do kart. Mas sempre gostei de velocidade.

JC - Como foi seu período de preparação e de formação para as corridas?

Darezinho - Cada ano se vai aprendendo e amadurecendo mais. O piloto nunca pára de aprender. No começo, como não se sabe nada, se aprende muita coisa em pouco tempo. Hoje, por exemplo, se eu pegar o kart e dar uma volta, vou aprender alguma coisa a mais. O aprendizado e o treino constantes diferenciam quem é ou não campeão. O piloto que treina e se dedica mais sempre vai levar a melhor.

JC - A disciplina faz parte do seu dia-a-dia?

Darezinho - Sim, vou para a academia todo dia e corro 30 ou 40 minutos na esteira ou na rua. Estou sempre procurando melhorar, não só na corrida, como em tudo. Acho que só com dedicação nós chegamos ao nossos objetivos. Isso é uma coisa de família, meu pai e minha mãe são dedicados, isso é fruto também do que aprendi com eles.

JC - Sua família sempre apoiou sua carreira?

Darezinho - Sim, minha família sempre esteve ao meu lado. Quando fui para os Estados Unidos foi uma mudança difícil porque tinha 17 anos, morava na casa dos meus pais e tive que sair de Bauru para morar sozinho. Para mim a fase foi ótima, porque amadureci. Aprendi uma língua nova e cresci bastante. Se não tivesse feito nada, ganhado corrida nenhuma, teria valido a pena por isso.

JC - Mas além da preparação física e dos treinos, muitas vezes o piloto precisa contar com a sorte para vencer uma prova.

Darezinho - É verdade. Piloto precisa ter todo o preparo para poder ganhar e ainda ter a sorte do seu lado. Às vezes ele se dedica, tem o conhecimento e a técnica, mas não ganha. Porque pode acontecer, na hora da largada, de quebrar alguma coisa no carro, como foi no meu caso. O piloto precisa contar com os imprevistos.

JC - O que representou o acidente em sua carreira?

Darezinho - Mudou bastante. Eu tinha um contrato até o final do ano com uma equipe e provavelmente iria ganhar boas corridas. Mas tive que ficar fora e as pessoas se esqueceram de mim, fiquei quase um ano sem andar de carro e não podendo mostrar meu trabalho. Acho que isso foi uma coisa que interrompeu minha carreira, mas por outro lado, se não tivesse tido esse acidente, eu estaria nos Estados Unidos e o kartódromo não teria existido. Foi até uma coisa boa. Eu vim para cá, e estou perto da minha família e dos meus amigos.

JC - Como foi a experiência em disputar corridas na Stock Car?

Darezinho - Quando voltei da Fórmula Indy fiquei sem contrato porque tive um acidente em 2003. Em 2004 vim para o Brasil, estava tendo a semana de Stock Car no País e resolvi experimentar. Mas é um carro totalmente diferente do que eu já tinha guiado, é um carro de turismo, pesado, que não tem potência, e eu não me acostumei. Também não achei que a Stock Car é tudo aquilo que a gente via na televisão. Eu achava que era um espetáculo bonito, uma corrida legal, mas quando se está lá dentro, se percebe que é a mesma Stock Car de alguns anos. Tive oportunidade de ter contrato para 2005, as equipes me procuraram, mas eu achei melhor não. Na verdade, não acostumei guiar o carro, não gostei da categoria e não ganhei dinheiro. Se tivesse pelo menos um dos três aspectos, já valia a pena. Prefiro correr de kart, que me dá mais prazer.

JC - Você se destacou na IRL. Tem planos de voltar a correu na categoria?

Darezinho - Na América, a categoria mais alta é a Indy. Na Europa é a Fórmula 1. Eu consegui chegar ao topo na Indy, fiquei quatro anos lá, ganhei corridas, então me dou por satisfeito. Lógico que se tivesse oportunidade de voltar lá e correr de novo eu voltaria, mas por uma equipe que eu tenha chance de ganhar. Muita gente vai para a Fórmula 1 ou Indy apenas por estar na categoria. Acho que isso não compensa. Se for para voltar, quero voltar em uma equipe que tenha chance.

JC - Quais são seu próximos projetos?

Darezinho - Tenho o sonho de construir um autódromo em Bauru para carros de corrida. Seria o segundo autódromo do Estado de São Paulo, que só tem um, em Interlagos. No Paraná há três autódromos, no Rio Grande do Sul, dois. Mas é um sonho que está bem distante ainda.

JC - Quais são os ingredientes para se obter uma vitória? E como encarar uma derrota?

Darezinho - Para a vitória, além da técnica e conhecimento, o principal é a dedicação e vontade. O resto se aprende. Mas a derrota é o mais importante para um piloto bem-sucedido, porque quando se perde é preciso aprender.

JC - É possível descrever a sensação de ganhar uma corrida e estar no pódio?

Darezinho - É muito gostoso. Além de tudo o que o piloto precisa fazer e se dedicar, ele precisa ter uma equipe boa e ter a sorte de dar tudo certo. Quando se está em primeiro lugar num pódio é tudo isso se concretizando. É tão gratificante e compensador que no ano seguinte ele quer continuar correndo pelo único gostinho daquela vitória.

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