“O meu nome é Severino, como não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar, Severino de Maria”! O trecho acima mencionado faz parte de reconhecida e importante obra da literatura brasileira, o poema “Morte e Vida Severina”, de autoria do inigualável João Cabral de Melo Neto, cujo tema diz respeito ao flagelo e à miséria da vida levada por muitos “Severinos” em Recife. Todavia, o bate-papo desta semana, embora tenha como protagonista um Severino, em nada guarda relação com o auto cabralino, infelizmente. O personagem em discussão é real, é presidente da Câmara dos Deputados, segundo na linha de sucessão presidencial e materializa, representa, encarna, o flagelo e a miséria institucional que estamos vivendo neste atual momento da política em terra brasilis.
Nosso Severino, em sabatina promovida pelo Grupo Folha, soltou a seguinte frase: “O estupro é um acidente horrendo. O homem que faz o estupro deveria até ter pena de morte. Como sou cristão, não admito a pena de morte, mas ele (estuprador) deveria ser condenado duramente”. Se Mauro Rasi ainda fosse vivo gritaria, com a picardia que lhe era peculiar: “Encontrei uma outra peróla”! Já para o saudoso e novelesco dom Giovani, considerar o estupro com acidente é algo “felomenal”!
A expressão em debate, frise-se, foi propagada pelo presidente da Câmara dos Deputados e expressa todo o seu despreparo em relação à condução e salvaguarda das instituições de nosso País. Como chefe de uma das Casas Legislativas, isto é, como guardião da Constituição Federal, jamais poderia manifestar desejo de aplicação da pena de morte a quem quer que seja. Como ser humano jamais poderia considerar o estupro como um “acidente”. Curioso, aliás, como o tema estupro causa problemas de interpretação para as figuras públicas brasileiras. Alguns anos atrás, outro figura conhecidíssima do meio político brindou-nos com essa: “Estupra, mas não mata”!
É bem verdade que, em conversa informal, o colega João Jabbour asseverou que coisas dessa natureza são fruto da incipiente e infante democracia tupiniquim. Concordo plenamente que a jovialidade de nossas instituições está a permitir, por mais algum tempo, derrapadas e deslizes, até que, efetivamente, se solidifiquem e concretizem os ideais democráticos necessários ao bem-estar da sociedade e, principalmente, na mente dos políticos que a representam, mas tudo tem limites. Acidente, caros amigos, foi a eleição desse “Severino” para a chefia da Câmara e não de um outro que representasse com dignidade o Parlamento e carregasse na alma a essência do brasileiro. Que Deus proteja sobremaneira a vida de Lula e José Alencar, de modo que não aconteçam acidentes de percurso. Durma-se com um barulho desses!
O autor, Claudio José Amaral Bahia, é advogado