Às vezes penso que faço parte da última geração de ingênuos. Foi uma geração que acreditava nas pessoas, tinha esperança no futuro e a palavra do homem tinha o mesmo valor de uma escritura lavrada. Crescíamos inocentes na maneira de conviver com as pessoas, na certeza de que não corríamos riscos. A competição não era tão acirrada como agora; ninguém pretendia ficar rico com um ou dois negócios, pois sabíamos que era preciso gerações de muito trabalho para amealharmos um bom padrão de vida.
A geração de ingênuos foi atropelada, agora, pela geração de espertos. Esse tipo leva sempre vantagem, porque ele é tudo que não soubemos ser. Vive à base da filosofia do oportunismo; é arguto para os negócios desonestos, tem lábia afiada, usa o exercício do charme e da personalidade viscosa para enlear as pessoas. Temos esse tipo na sociedade e na política. Que nome deixara para a história esse nosso político, que faz fama subindo pelos degraus das CPIs, do desvio de verbas públicas, todos eles enquadrados pela Polícia Federal? Que sabor de realização pode ter ao usufruir de uma fortuna desviada da merenda escolar, do Banco de Sangue, do INSS?
Como irão sobreviver no conceito de pessoas honestas esses tipos que fazem carreiras enxovalhando em meandros obscuros para esconder seus ardis e subterfúgios? Será que no futuro terão consciência de que destruíram a opinião dos amigos, de que suas espertezas solaparam suas carreiras, estigmatizaram seus nomes?
Sim, fiz parte de um meio que desconhecia desonestidade, a deslealdade, a traição. A ingenuidade nos trazia um clima de confiança mútua, de tranqüilidade no trato social. Como éramos ingênuos, não estávamos preparados para nos proteger e até mesmo nos defender dessa geração que está vindo, de espertalhões!
A autora, Adelaide Reis de Magalhães, escritora, colaboradora de Ju Machado escritório de arte.