Articulistas

Ilha da fantasia e do poder


| Tempo de leitura: 3 min

Enfurecido, o primeiro secretário da Câmara dos Deputados, Inocêncio Oliveira (PMDB/PE), gritava na entrada do prédio, na semana passada, bravo pela ausência de seu motorista que ali deveria estar esperando pela autoridade. Percebendo que estava chamando a atenção e recebendo olhares reprovadores, pediu desculpas pelo escândalo. Só não conseguiu apagar o que disse a respeito do motorista: “Ganha R$ 12 mil por mês e nunca está onde eu mando”.

Sim, ninguém escutou errado. Há motoristas da Câmara dos Deputados, em Brasília, ganhando R$ 12 mil. Mas não é só isso que escandaliza. Por meio de inúmeros artifícios e sucessivos planos de carreira, os antigos copeiros e copeiras do Senado Federal, que entraram para o quadro de estatutários após a Constituição de 1988, hoje ganham mais de R$ 6 mil - líquidos - para levar papel de lá pra cá, buscar água e coisas do gênero.

Muitos são semi-alfabetizados ou analfabetos de pai, mãe e parteira. Os ascensoristas mais antigos do Senado ganham mais que um brigadeiro da Aeronáutica ou que qualquer piloto de caça da FAB para conduzir seu elevador com suas excelências para uma altura máxima de 24 andares.

Em um dos arranjados planos de carreira, a título de economia, foi extinto o quadro de motoristas do Senado. Foram todos reenquadrados na segurança da casa e, hoje, ganham mais que muito delegado de polícia do Interior brasileiro. O mesmo aconteceu com os copeiros e copeiras antigos, que hoje ganham mais que um grande chefe de cozinha para servir cafezinho.

O chocante é que, relocados, reenquadrados ou coisa que o valha, foram substituídos por funcionários terceirizados que recebem salários de mercado, não mais que R$ 600,00. Como não existe mais o quadro de copeiros, esses continuam em outras funções semelhantes ou em nenhuma função dentro dos gabinetes. Mas com um detalhe: só trabalha em gabinete quem tiver gratificação. E a menor gratificação é de R$ 1.300,00.

O piso salarial dos jornalistas do Senado é pouco mais que R$ 12 mil, o que impôs que criassem um novo piso especial, para aproveitamento de concursados aprovados pela Câmara, onde o salário e quase R$ 8 mil. Mas ninguém fica só com o piso, pois os contracheques parecem uma árvore de Natal, de tantos penduricalhos: é gratificação por atividade legislativa, gratificação disso e daquilo, etc e tal.

Os chefes de gabinete não ganham menos que R$ 14 mil, sendo comum extrapolar para R$ 17 ou R$ 19 mil. E há, ainda, os que acumularam chefias e postos e que ganham, hoje, muito mais que os próprios senadores. São salários que passam dos R$ 20 mil. E tome auxílio alimentação, R$ 90,19 milhões somente para os funcionários da Câmara dos Deputados que gasta R$ 6,45 milhões/ano em creche e R$ 39,74 milhões em assistência médica e odontológica.

Para ninguém pegar no pesado, uma firma foi contratada por R$ 2,65 milhões para remoção e arrumação de cargas, móveis e assemelhados. Eu, que moro em Brasília há 36 anos, também fico bravo quando chamam isso aqui de Ilha da Fantasia. Mas que não dá para negar, não dá.

O autor, Murilo Murça de Carvalho, é correspondente do JC em Brasília

Comentários

Comentários