Articulistas

China e negócios no Japão


| Tempo de leitura: 2 min

O Brasil pode se beneficiar muito da colaboração japonesa no setor da energia, em decorrência dos contatos de alto nível da ministra Dilma Roussef com autoridades e investidores durante a recente viagem do presidente Lula ao Japão. Talvez o melhor resultado dessa visita tenha sido a renovação do interesse japonês em trabalhar conosco no financiamento dos novos produtos de energia e no aumento da colaboração nos projetos da Petrobras. O Japão teve uma participação importante no processo de desenvolvimento brasileiro nos anos 50 a 80 do século passado, mas, nos últimos 10 ou 15 anos, nós nos afastamos, talvez mesmo pelo fato que perdemos o rumo do crescimento. O pouco que restou de colaboração, aliás, foi no setor da energia e com a Petrobras.

O Brasil oferece hoje condições bastante favoráveis para a exploração de oportunidades na área energética. Além de termos alcançado praticamente a autosuficiência no abastecimento do petróleo, desenvolvemos tecnologia de vanguarda na utilização do biodiesel e do etanol, com a vantagem adicional de que temos a terra e o sol, os elementos necessários para o cultivo da soja, do girassol, do babaçu ou da cana. Com esses argumentos, acredito que a nossa ministra da Energia tenha avançado muito na tarefa de obter o suporte do governo japonês e trazer de volta os financiamentos públicos e privados para os projetos comuns de aproveitamento dessa energia alternativa.

Estou convencido que, se tivéssemos tratado o Japão melhor nestes últimos dez anos, os nossos negócios já teriam crescido bastante. Da mesma forma que muitos outros países, nos deixamos impressionar com a expansão da economia chinesa e passamos a dedicar mais atenção aos “negócios da China” do que aos do nosso velho e fiel parceiro. Uma coisa não exclui a outra, mas é evidente que o Japão é um precioso fornecedor de recursos que podem nos ajudar nos investimentos nos programas de energia. Já os negócios com a China têm que ser analisados com muito cuidado, por causa das peculiaridades de sua economia e porque a parceria com os chineses costuma ser muito difícil: seus produtos têm subsídios de toda a natureza, inclusive através de créditos não resgatados e os preços são políticos. Ela aproveita todas as vantagens de uma mão-de-obra incrivelmente barata e da importação de tecnologia.

Os US$ 200 bilhões de investimentos americanos e japoneses lhe permite bancar hoje uma ciranda financeira em que o BC chinês compra papéis americanos para financiar o déficit que os chineses causam na balança comercial americana com suas exportações subsidiadas... É preciso, portanto, acompanhar isso com todo o cuidado, porque esse é um sistema que viola a primeira lei da termodinâmica.

O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP e professor emérito da USP

Comentários

Comentários