Certa vez, um comerciante havia perdido seu camelo. Como era um animal indispensável para seu trabalho, ele começou desesperadamente a procurá-lo. Ao encontrar um turista, o comerciante perguntou se este não havia visto um camelo por ali. Depois de refletir um pouco, o turista perguntou: “Por acaso o seu camelo é perneta?”
Imediatamente, respondeu o comerciante: “Isso mesmo, o meu camelo manca de uma perna. Então, você viu o meu camelo!” “Não”, falou o turista, “eu não vi seu camelo. Mas... o seu camelo é por acaso caolho?” “Isso mesmo”, alegrou-se o comerciante, “o meu camelo só tem um olho. Ora, você viu o meu camelo!” O turista respondeu: “Não, o seu camelo eu não vi não. Mas... por acaso o seu camelo não tem dentes, tem?”
Já nervoso, o comerciante respondeu que seu camelo era mesmo banguela. Inconformado com as informações do turista por ele ter descrito o seu camelo com tanta exatidão e mesmo assim afirmar não tê-lo visto, resolveu o comerciante chamar a polícia. O turista foi detido como suspeito e levado à delegacia. Foi então que, no interrogatório, o turista pôde explicar tudo: “Eu não vi o camelo do comerciante. Mas quando eu vinha para a cidade notei rastros na área e neles faltava uma pata do animal. Então percebi que somente os capins que estavam de um lado do caminho foram comidos. Portanto, deduzi que ele só tinha um olho. Olhando com mais atenção percebi que os capins não eram comidos todinhos; alguns permaneciam inteiros. Foi então que conclui que o camelo era banguela.”
Nós todos corremos um grande risco em nossa vida: o de viver como se estivéssemos em um carro, em alta velocidade, sem tempo para olhar a paisagem. Muitas vezes deixamos que o nosso trabalho, os compromissos e as obrigações, as nossas preocupações e medos acabem tomando conta de nosso ser e de nossa vida.
Ou então, quando temos tempo, procuramos ocupá-lo com tantas atividades que acabamos perdendo aquela ociosidade tão necessária para refletir sobre nós mesmos e sobre a forma que estamos vivendo. O resultado é que ficamos na superficialidade de nossas experiências, adquirimos muitas impressões falsas de nós mesmos, das outras pessoas e dos acontecimentos, realizamos várias atividades automaticamente e, o que é pior, ao olharmos a realidade, acabamos não vendo o que ela na verdade nos oferece.
O perigo aqui é a alienação, ou seja, deixar de perceber “os rastros do camelo”. O ser humano não é somente parte de uma história, mas principalmente sujeito ativo dentro do contexto histórico em que vive. Desta forma, viver significa contribuir para a construção da história em suas diversas dimensões. Como humanos construímos nossa história individual, a história de nossa sociedade e também história da humanidade. Justamente o primeiro passo para deixarmos de ser passivos e darmos um sentido à nossa existência é o “despertar para a realidade”, ou melhor, refletirmos sobre os fatos do nosso cotidiano e procurar vê-los de forma ativa, compreendendo o momento e o contexto no qual vivemos. Nós nos libertamos da alienação à medida que sempre procuramos nos conhecer melhor, analisando nossas reações e desejos, nossa forma de ser e de nos relacionar com os outros e com o mundo.
Nós nos tornamos menos alienados à medida em que procuramos compreender a nossa sociedade, procurando ser pessoas bem informadas, analisando de forma crítica tudo o que acontece na vida de minha cidade, de meu país e do mundo. Nós nos tornaremos mais vivos à medida em que questionarmos a razão da existência, o sentido de viver e de estar neste universo.
Para isso, é necessário que criemos espaços livres de reflexão, momentos tranqüilos nos quais possamos realmente ver o que acontece conosco em nosso cotidiano. Aproveitar aquele momento de ociosidade, a nossa caminhada no fim do dia ou até mesmo a missa ou o culto religioso lançando um olhar crítico para dentro de nós mesmos e para o mundo. Uma das melhores formas de não perder de vista o caminho que trilhamos é diariamente, antes daquela tão desejada noite de sono, fazer uma pequena retrospectiva do nosso dia, procurando “reviver” os momentos bons e ruins que tivemos durante o correr do dia. Pois, como afirma Fernando Pessoa, “Eu sou do tamanho do que vejo, e não do tamanho de minha altura.”