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Sabedoria popular e cultura política


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Conta Von Ihering, em seu clássico e excelente “Da vida dos nossos animais”, que, viajando pelos sertões brasileiros, ouviu a seguinte trova: “O tatu mais a mulita é lei da sua criação: se é macho não tem irmã; se é fêmea não tem irmão.”

Curioso, procurou saber mais sobre o significado da trova. Espantado, percebeu que aqueles matutos sabiam realmente do que falavam, em clara manifestação de sabedoria popular - aquela que vem da observação das coisas que ocorrem no dia-a-dia, que passa de pessoa para pessoa, de geração para geração.

Obviamente aquelas pessoas simples do sertão nada sabiam a respeito de gêmeos univitelínicos, nada conheciam sobre o processo de desenvolvimento embrionário, mas já tinham observado por muito tempo e estavam certos de que as ninhadas de tatus e de mulitas (também um tipo de tatu) eram sempre constituídas por filhotes semelhantes entre si, todos do mesmo sexo.

A antípoda da sabedoria é representada pelas crendices e pelos tabus populares. Como a de que comer manga com leite “faz mal”, a de que lavar o umbigo é danoso para a saúde, e muitas outras. Algumas dessas crendices e tabus são muito prejudiciais, podendo acarretar problemas de diferentes tipos. No entanto, em nossas comunidades mais simples persistem muitos tabus e crendices. E, infelizmente, é de tais crendices que vivem muitos políticos e muitas políticas.

Sem dúvida, uma das tarefas mais importantes nos dias de hoje é a de lutar pelo aperfeiçoamento da cultura política de nosso povo. É trabalho para cada cidadão de bem, ligado ou não à política partidária. É preciso mostrar o quanto é prejudicial acreditar em vícios de conduta como o clientelismo, o fisiologismo, a demagogia, a corrupção, o oportunismo e a incoerência. Aos políticos e partidos sérios cabe lutar, principalmente através de exemplos, para que a cultura política de nossa gente permita a clara separação entre sabedoria e crendice. Quando isso acontecer, certamente viveremos dias melhores e mais justos.

O autor, Isac Jorge Filho, é presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo

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