O casarão secular de número 86 da avenida Campos Salles, no Centro de Jaú, abriga um senhor solitário de 93 anos de idade. Ele tem perfil franzino: magro, calvo, estatura mediana, olhos claros. O avanço da idade expõe sua fraqueza física. Quem o vê pela primeira vez vem à mente flashes do avô tolerante com o neto. Mas ele não constituiu família. Não casou e nem teve filhos. Esse homem é um arquivo vivo do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Foi seu diretor durante um período do regime militar que ficou conhecido como “os anos de chumbo”.
Wanderico de Arruda Moraes é um nome ainda lembrado por muitas dezenas de presos que ficaram trancafiados nas celas do Dops, prédio que no passado serviu como estação da antiga Estrada de Ferro Sorocabana, no Centro velho de São Paulo. Ele mesmo lembra, esboçando um sorriso, de um de seus mais ilustres presos: José Dirceu, na época diretor da União Nacional dos Estudantes (UNE), hoje ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula.
O ex-diretor do Dops atuou no departamento de julho de 1966 até se aposentar, em 1971. Logo após conseguir o benefício, decidiu retornar à cidade onde nasceu, Jaú. E até hoje se mantém plugado no que acontece na cidade, no Estado, no Brasil e no mundo. Acorda às 6h30. No café, começa a rotina de leitura de seis jornais: Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Jornal da Cidade (Bauru), Jornal do Comércio (Jaú) e Nosso Jornal (Osvaldo Cruz).
“Fui eu em quem organizou a operação para prender os estudantes de Ibiúna. Eu mandei cercar a cidade”, diz, lembrando do marcante episódio do congresso da UNE, realizado na clandestinidade em outubro de 1968, que culminou com a prisão de mais de uma centena de universitários considerados “subversivos” pelo regime militar.
Com a voz fraca e o pescoço protegido do frio de junho por um cachecol, o ex-delegado do Dops garante que os presos eram bem tratados. “O Dops tratava bem (os presos). E eles obedeciam”, afirma. Sem dar pormenores, Wanderico interrogou Dirceu logo após sua chegada ao Dops. “Eu tenho cópias guardadas (do depoimento), mas não estão aqui (em casa)”, desconversa.
De maneira muito calma, ele conta que foram enviados a Ibiúna mais de 30 delegados de polícia e cerca de 50 investigadores. “Eu fiquei na sede. Eles (os estudantes) não deram trabalho”. Bastante lúcido, o ex-delegado lembra que a passagem de Dirceu pelo Dops foi rápida. “Depois, ele partiu para exílio”.
A leitura diária dos dois principais jornais do País (Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo) garante a Wanderico o acompanhamento dos principais fatos políticos registrados em escala nacional. Ao ser indagado sobre a avaliação que faz do atual ministro-chefe da Casa Civil, em comparação à época da prisão, Wanderico responde: “Ele melhorou muito. Trabalha e se esforça de acordo com a política. Percebe-se que há boa vontade. Tomara que acerte”, deseja.
Outro militante de esquerda interrogado pelo ex-delegado do Dops foi o ex-sargento do Exército Onofre Pinto, membro da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), acusado de praticar assaltos a bancos. “Ele já morreu”, informa Wanderico. Pinto, após deixar a prisão do Dops, se exilou na Argentina. Ao tentar retornar ao Brasil, desapareceu misteriosamente na região da fronteira daquele país com terras brasileiras.
Com a matrícula de serviços em mãos, o ex-delegado mostra, com semblante de satisfação, uma imensa lista com os nomes das cidades onde atuou antes de chegar ao Dops, em São Paulo. São 17 municípios localizados em todas as regiões paulistas, inclusive nos extremos do Estado.
Advogado formado pela tradicional Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Wanderico queria mesmo seguir a carreira de militar no Exército Brasileiro. “Cheguei a me apresentar na Escola do Realengo, no Rio. Mas fui vetado porque participei da Revolução Constitucionalista de 1932. Pediram para que eu voltasse no ano seguinte. Não voltei. Então, decidi investir na carreira de delegado de polícia”, diz.
Por ironia do destino, prendeu e interrogou dezenas de militares do Exército considerados subversivos porque simpatizavam ou defendiam a ideologia comunista. “Foi uma contingência da época”, finaliza.