Geral

Entrevista da semana: Poder público não usa água racionalmente, diz especialista

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 11 min

Ao nascer, o bebê tem em seu organismo entre 70% e 80% de água. A proporção vai caindo no decorrer da vida e chega a 53% aos 75 anos, como explica o geriatra José Antônio Esper Curiati, do Hospital Sírio-Libanês, no Guia dos Curiosos. Mas tão curioso quanto a alta porcentagem de água no corpo humano é o quanto o homem depende deste mineral, que é finito. Ele pode passar até 28 dias sem comer, mas apenas três dias sem beber água, alerta a Universidade da Água. Acrescente-se a isso o crescimento populacional, que a cada dia eleva a demanda de água. Solução? Se o homem não pode viver sem água, pode pelo menos usá-la de forma racional.

E esta é uma discussão não mais restrita a organizações não-governamentais como a W.W.F., que hoje, no Dia Mundial do Meio Ambiente, montará uma instalação com cerca de 15 metros de altura representando um balde e uma torneira ao lado do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, para alertar governos e sociedade de que a água não é apenas uma mercadoria a ser consumida, mas fundamental para a vida e ao bem-estar social, ao desenvolvimento econômico e à geração de empregos no País.

A iniciativa privada está investindo no uso racional de água, até porque é uma forma de reduzir custos, analisa Paulo Costa, advogado com especialização em meio ambiente que é diretor comercial da H2C, empresa sediada em São Paulo especializada em programas de racionalização do consumo de água. Mas a realidade não é a mesma quando se trata dos órgãos públicos, afirma ele.

Costa avalia que o gestor público não está sendo competente o suficiente para implantar programas sérios de uso racional de água. E ele dá duas explicações: quem capta, trata e distribui água para a população é o Estado, que vê o mineral como produto e, por isso, tem interesse em vender mais - e não menos. Em conseqüência, são raras as campanhas consistentes e incentivos para a redução do consumo.

Por outro lado, o dinheiro para pagar a água gasta em excesso nas repartições públicas ou perdida em vazamentos que não são consertados rapidamente sai do orçamento público. As perdas no sistema são altas. Em Bauru, o Departamento de Água e Esgoto (DAE) estima que entre 20% e 25% da água produzida se perde entre a captação e a distribuição.

Costa ressalta que, para a maioria dos políticos brasileiros, saneamento básico não rende votos. Por essa série de fatores, ele avalia que o poder público está atrasado em relação à iniciativa privada quanto ao uso racional de água. Com a atual tecnologia, ele afirma que o consumo diário deve ser de 180 litros por pessoa em edifícios residenciais e de 30 litros por pessoa nos edifícios comerciais. Nesta entrevista, Costa fala da necessidade do uso racional da água.

Jornal da Cidade - Pelos clientes de sua empresa, quem está mais preocupado em economizar água, a iniciativa privada ou os órgãos públicos?

Paulo Costa - O setor privado, muito mais. Os órgãos públicos não têm interesse claro e evidente em desenvolver programas de racionalização do uso de água em escolas, hospitais... É necessário que o gestor público tenha atitude em relação ao dinheiro que é arrecadado através dos impostos porque ele também paga água, como nós...

JC - E a iniciativa privada, ao procurar uma empresa para reduzir consumo de água, está preocupada em cortar custos ou com o meio ambiente?

Costa - O que movimenta o setor privado para programas de racionalização do uso da água não é a responsabilidade social em relação ao meio ambiente, mas sim a redução de custos, o bolso.

JC - Mas indiretamente, o meio ambiente é beneficiado...

Costa - Sim, tem o benefício ambiental. Veja só: 97% da água disponível na Terra é salgada - está no oceano, no mar. Entre 2% e 4% é água doce, mas está em geleiras, no subsolo. Apenas 0,07% está disponível para consumo. Por isso é um absurdo dizer que nós, o Brasil, temos muita água disponível. Além disso, 85% da nossa água está na região da Amazônia, onde está apenas 15% da população. E as regiões Sul e Sudeste concentram 85% da população do Brasil e só 5% da água do País disponível.

JC - E essas regiões, por causa do adensamento populacional, produzem muito esgoto, que em boa parte é lançado nos rios, poluindo-os e inviabilizando a exploração da água para consumo humano....

Costa - É exatamente! É uma ilusão pensarmos que, porque o Brasil detém 11% de toda água doce superficial do mundo, temos água à disposição.

JC - E por que não existem campanhas mais consistentes para o uso racional e incentivos para isso?

Costa - O papel da concessionária de água é vender água, vender facilidade. Por isso, achamos que programas de uso racional de água devem ser realizados por órgãos que não tenham nenhuma relação com o fornecimento de água.

JC - Mas o valor cobrado pela água não funciona como um regulador de consumo?

Costa - Em todo o mundo, o metro cúbico de água residencial custa mais que o comercial. Só no Brasil, desde o golpe militar, para ganhar a simpatia do povo, passou-se a subsidiar a água consumida nas residências.

JC - O senhor acha que os valores da água residencial e comercial deveriam ser equiparados?

Costa - Deveria ser invertido. A água residencial deveria custar mais que a comercial porque o grande desperdício ocorre nas casas. Quantas vassouras hidráulicas a gente vê por aí... Chuveiro ligado enquanto a criança brinca. Um banho de dez minutos gasta em torno de 250 litros de água. É muita coisa! É necessário ter atitude em relação ao uso racional da água. Hoje em dia tem bacia sanitária de baixo consumo, que gasta seis litros por função.

JC - E por que a indústria não adota essas bacias sanitárias de baixo consumo?

Costa - A indústria adota, mas o estoque de bacias sanitárias de alto consumo ainda é muito grande. Mas não basta só fazer esta substituição. É necessária uma regulagem na válvula de descarga porque, senão, vai continuar gastando 12 litros de água ao invés de seis.

JC - Mas essa nossa preocupação ambiental e de economia de água é relativamente recente. O senhor faz uma estimativa de quanto tempo levará para a sociedade se conscientizar quanto à necessidade do uso racional da água?

Costa - Isso me preocupa. Quem faz programa de racionalização de cunho público é a concessionária de água, cujo interesse é vender facilidade, vender água. Ela não tem interesse em fazer programas efetivos de uso racional de água porque vai arrecadar menos. Ou seja, menos dinheiro para o administrador público. Vou dar um exemplo. O governo Geraldo Alckmin propôs um projeto, que já virou lei, que determina que todas as autarquias estaduais devem ter torneiras automáticas e bacias sanitárias de baixo consumo. Mas essa lei não é aplicada. Os prédios públicos não têm torneiras com temporizador e bacias sanitárias de baixo consumo. Há a lei, mas não é aplicada. E para conscientizar a população, para você ensinar para seu filho determinados conceitos, vai uma geração. Não será em dois, cinco anos. Tem que ser um projeto sério, consistente, perene e que impulsione a população a economizar. Vou dar outro exemplo: A cidade de Nova York, em 1994, fez um programa de racionalização do consumo de água que incentivava as pessoas a trocar as bacias sanitárias de alto consumo por outras de baixo consumo. Resultado: trocaram mais de 1,5 milhão de bacias em quatro anos.

JC - O senhor acha que é obrigação do poder público, aqui no Brasil, criar linhas de crédito para programas de uso racional da água além de implantá-los internamente?

Costa - É claro! No caso de Nova York, o governo fazia o programa de uso racional da água e dava o exemplo ou teria um custo adicional da ordem de US$ 3 bilhões na captação de água. Então, eles preferiram incentivar a troca oferecendo US$ 250 pela primeira bacia e US$ 120 pela subseqüente; chuveiro de alto consumo por de baixo consumo. O que são chuveiros de alto consumo? Nós temos chuveiros que consomem de 20 a 25 litros de água por minuto. E temos tecnologia no Brasil, semelhante à européia e à norte-americana, que põe nesses chuveiros restritores de vazão por um custo muito baixo, de R$ 12,00 a R$ 14,00. E ao invés de 25, ele passa a gastar 14 litros de água por minuto. Isso é racionalização, que pressupõe conforto e qualidade. Já racionamento é restrição.

JC - E para o Brasil, o que o senhor sugere ao poder público para incentivar o uso racional da água?

Costa - Desconto na conta de água se a pessoa economizar é uma alternativa. O Geraldo Alckmin, através da Sabesp, chegou a dar este desconto, mas parou. Por que que não é perene? Porque o governo percebeu que precisava arrecadar mais.

JC - E as concessionárias responsáveis pela captação, tratamento e distribuição de água estão nas mãos do Estado ou dos municípios....

Costa - Exatamente! E isso dificulta o uso racional da água. Já na iniciativa privada, que tem concorrência, se o serviço não é bom, a empresa sai do mercado. Se é bom, quem ganha é o usuário com preço e qualidade.

JC - O senhor acha que o serviço de abastecimento de água precisa de concorrência?

Costa - Seria uma grande vantagem porque iria tratar a água como um bem finito, não renovável. Essas empresas teriam que gerenciar os reservatórios de forma consciente.

JC - O senhor acha que deveria passar para a iniciativa privada?

Costa - Acho difícil, até porque no resto do mundo boa parte das concessionárias de água ainda é estatal. Porém, existe um conselho gestor nestas concessionárias de água que proíbe, por exemplo, o ganho financeiro em relação ao uso da água. Isso porque, quando se tem água encanada, saneamento básico feito, o número de internações em hospitais públicos causadas por doenças resultantes da contaminação por água não tratada reduz na ordem de 60%. Mas saneamento básico e água encanada são obras que não aparecem. O político gosta de fazer ponte, viaduto.... Obra enterrada não aparece!

JC - O senhor é favorável à lei para punir o desperdício de água?

Costa - Sim, isso ajuda no uso racional da água, mas acho que melhor ainda é o incentivo à economia, como desconto na conta para quem reduzir o consumo.

JC - Será que a Lei de Responsabilidade Fiscal, à medida que exige dos gestores públicos redução de gastos, não vai levá-los a investir em programas de uso racional de água e de outras áreas que possam contribuir com a proteção ao meio ambiente?

Costa - Participei, há duas semanas, de um fórum sobre Lei de Responsabilidade Fiscal e consumo racional de água. Estamos preocupados porque vários políticos já quebraram a regra da Lei de Responsabilidade Fiscal e não foram punidos. E isso desestimula as pessoas a pensar em responsabilidade. A iniciativa privada faz isso não por responsabilidade social, mas pensando no bolso. O governo, seja ele federal, estadual ou municipal, não se interessa em fazer programas de uso racional da água porque vai arrecadar menos. Ele fala de meio ambiente, mas não faz programa efetivo para economizar água.

JC - E as concessionárias de água também desperdiçam água nos processos de captação, tratamento e distribuição...

Costa - A fuga de água na Sabesp é da ordem de 47%. E não se vê campanha pedindo à população para que, ao ver um vazamento, informe a Sabesp.

JC - E, muitas vezes, quando o cidadão informa sobre um vazamento, o conserto é demorado.

Costa - Exatamente. A gestão pública é muito deficiente em relação ao uso racional de água. Ainda não temos uma política de água eficiente neste País.

JC - O que o cidadão pode fazer para usar água racionalmente e exigir do poder público a mesma postura visando a proteção ambiental e a redução de custos?

Costa - Ele pode fazer programas de racionalização do uso de água na casa dele instalando bacias sanitárias de baixo consumo, redutores de vazão nos chuveiros, temporizadores nas torneiras e abolindo a ducha de água para lavar quintais e carro. E deve cobrar do administrador público atitude com relação à administração da água, programas claros para um bem que é finito, caro e de tanta importância para nós.

• Serviço

A H2C disponibiliza em seu site (www.h2c.com.br) uma consulta do potencial de economia de água. Basta preencher os dados e aguardar o cálculo.

Comentários

Comentários