Bairros

Mudanças nem sempre são bem aceitas

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 4 min

A “chegada do progresso” às portas da própria casa nem sempre é vista com bons olhos por alguns moradores consultados pela reportagem. Nestes casos, eles alegam que a situação se assemelha a comprar gato por lebre. É o caso do aposentado Américo Limão da Silva, 52 anos, morador há dois anos na rua Prof.ª Prosperina de Queiróz, no Jardim Pagani.

Ele jura que não foi consultado pelo vereador Paulo Madureira (PP), autor do projeto, sobre a mudança da via onde mora para corredor de serviços. E mais: garante que seus vizinhos mais próximos, se também tivessem sido consultados, não aprovariam a medida. “Quando comprei minha casa, isto aqui (rua Prosperina) não era corredor”, protesta.

A rua abriga há anos uma grande oficina que, segundo Silva, traz transtornos para uma via que, por estar localizada num bairro afastado do centro da cidade, deveria ser essencialmente residencial. “Quando chove, o cheiro de óleo que escorre pela rua fica insuportável”, relata. A única “vantagem” da presença da empresa, na avaliação do aposentado, seria o aumento na segurança proporcionada por vigilantes contratados pela oficina.

Silva acredita que, com a mudança na classificação da rua, os estabelecimentos já instalados na via poderão ampliar suas atividades, o que aumentaria os problemas que incomodam a sua família. Segundo ele, este tipo de atividade não caberia na sua rua. “Este tipo de negócio não pode existir numa rua como esta, é coisa que deveria estar num distrito industrial”, protesta.

Desacorçoado com a situação, Silva já faz planos para deixar o bairro. “Vou voltar para o PVA”, diz, em referência ao Parque Vista Alegre, local onde morou por anos antes de se mudar para o Jardim Pagani. O problema, segundo o aposentado, será vender a casa. “A mudança da rua (para corredor de serviços) não trouxe nada para o bairro, que só está perdendo com a situação. Minha casa se desvalorizou e para sair acho que terei de perder dinheiro”, conforma-se.

Outras prioridades

Avaliação semelhante tem o desempregado José Maria de Souza, 45 anos, morador da Rua Bauru, na Vila Santa Luzia. A via, ainda estritamente residencial, está na lista do vereador Paulo Eduardo Martins Neto (PFL) entre as próximas a terem sua classificação alterada. “Não vai fazer diferença, a não ser atrapalhar o comércio já estabelecido aqui”, avalia. “Além disso, perderemos em tranqüilidade”, emenda.

Segundo ele, os vereadores deveriam se preocupar com questões “mais importantes do que ficar alterando a vocação das ruas”. “O momento econômico exige que eles (vereadores) deveriam se preocupar é em criar condições para trazer empresas para a cidade”, sugere o aposentado. “Não sou contra estes projetos, mas existem coisas mais importantes no momento”, resume.

Previsão de progresso

Mesmo surpreendida com a informação de que a via localizada bem em frente à sua casa, na Vila Santa Luzia, passaria a ser um “corredor de serviços”, a dona de casa Janaína Mainini, 30 anos, não hesitou em festejar a notícia. “Acho que vai ser bom”, avalia.

Moradora há 25 anos no local, Mainini elogiou a alteração da classificação da rua Valdemir Nunes Medeiros, via que já conta com uma minigaleria de lojas e que, com a mudança na lei, poderá receber também um salão de festas no andar superior do prédio que abriga atualmente um comércio variado, que inclui sorveteria, locadora de filmes e loja de som automotivo, entre outros.

“Para mim, isso (salão de festas) não deverá trazer nenhum incômodo. Só não gosto de ‘boteco’ com som ao vivo e bagunça até altas horas”, diz. Os moradores da região acreditam que até mesmo a segurança do local será privilegiado com o aumento de movimento na rua. Para eles, locais abandonados são mais propícios à ação de marginais.

A dona de casa acredita ainda que situações como esta pode ser fator decisivo para levar o progresso a locais mais afastados do centro da cidade. Ela lembra que seu bairro já possui um comércio variado e diversos tipos de serviços. “Acho bom ter essa variedade de serviços na porta de casa”, afirma. Para Mainini, seu bairro poderá se transformar em breve numa “espécie de Mary Dota”, numa referência ao bairro da zona leste que tem na avenida Marcos de Paula Raphael um dos mais fervilhantes corredores comerciais e de serviços da periferia bauruense.

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