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A mulher e sua jornada de trabalho


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Já faz algum tempo que a mulher ingressou no mercado de trabalho pra valer, assumindo a casa, o cuidado dos filhos, e também o trabalho em período integral acumulando, às vezes, até mesmo a dupla jornada de trabalho fora. Eu acho isso um crime, mas também me insiro no rol das que necessitam trabalhar para sustentar o lar. Vou explicar por que me incomodo com a situação atual.

A mulher, desde o princípio, serviu de companhia e ajuda (Gn 2, 18), principalmente porque suas responsabilidades nunca foram poucas. À mulher foi dada a possibilidade de gestar a espécie humana e cuidar dela até que tivesse condições de sobreviver por si só. A educação e cuidados para com os filhos sempre estiveram muito mais a cargo da mãe. Ocorre que, com a saída da mulher do lar e sua conseqüente admissão no mercado de trabalho, os filhos ficaram (como ficam) inseridos num contexto completamente diverso do que existia anteriormente, apresentando resultados também logicamente diferentes.

Se por um lado a ausência materna do lar predispõe os filhos a uma maior independência, por outro sinaliza um real abandono que lhes trará implicações pela vida toda e que não poderão ser supridas por desculpas ou presentes.

A mulher, ainda hoje, é a viga mestra de uma casa, embora atualmente também seja em muitas delas a principal mantenedora financeira. Inúmeros lares são sustentados pelas mulheres e um sem número deles por mulheres sozinhas, ou seja, separadas, divorciadas, viúvas... com uma prole de ao menos dois ou três filhos. A presença da mulher em casa é fundamental e isso não tem sido levado em conta pelos governantes. A jornada de trabalho da mãe deveria ser reduzida com o intuito da mesma poder dar a atenção tão necessária aos filhos pequenos, a fim de que possam assimilar valores éticos e morais, o que se dá justamente nessa fase.

O mundo já está colhendo as conseqüências da ausência materna no lar. Crianças e adolescentes egocêntricos, individualistas, frios, insatisfeitos e cruéis. De onde vem isso? Da falta de atenção, oras. Da falta de disciplina e limites antigamente impostos à exaustão pelas mães de plantão. Hoje em dia, a empregada, a babá, a creche, a escolinha, são muito mais mães que qualquer mulher que tenha parido. Só que é completamente diferente do calor e carinho que a mãe pode oferecer. É certo que o contato com outras crianças favorece a socialização, incentiva as trocas afetivas e a criação de vínculos de confiança, entretanto, se nada disso se experimenta em casa fica muito mais difícil e complicado, quiçá impossível.

Não sou contra o trabalho materno, pelo contrário, sei que hoje é uma necessidade, pois há um descaso geral quanto à família e sua manutenção. Apenas sinto que a mulher tem uma sobrecarga difícil de suportar, acumulando os afazeres domésticos (lavar, passar, cozinhar, limpar a casa...) com a jornada de trabalho, a criação dos filhos (que fora atenção e carinho ainda precisam de médico, dentista, lazer, escola...). Se avaliarmos direitinho verificamos que sobra bem pouco tempo pra mãe cuidar dela mesma, e ainda tem gente que a incentiva a malhar numa academia para ter o corpo sarado e assim prender junto dela o homem que ela ama.

Acredito que tem muita coisa errada nessa história, e até entendo que os tempos são outros, mas pra mim importante mesmo é aquilo que é perene, e eu sei que um filho cuidado, disciplinado, e verdadeiramente amado é motivo de orgulho para seus pais. Pena que a mulher tenha de trabalhar tanto e deixar seus filhos aos cuidados do mundo, que até hoje nunca aprendeu a educar alguém.

A autora, Maria Regina Canhos Vicentin, é profissional especialista em Psicologia Clínica e Jurídica

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