Retornando da cidade de Fernão, após ter rodado 30 quilôemtros faltando 15 quilômetros para chegar em Bauru, observo um senhor magro, negro, de chapéu, com um guarda-chuva, andando pelo acostamento da pista. De repente, percebo que seu corpo tende a cair no chão. Talvez tenha tropeçado em algum buraco ou uma pedra. Mas ele não chega a cair. Diminuo a velocidade, passo por ele numa velocidade de 20km/h.
Observo pelo retrovisor aquele senhor caminhando e algo me diz para retornar e oferecer-lhe uma carona. Parecia ser uma situação diferente. Estava bem vestido, usava um chapéu de boiadeiro, falava concatenado.
Já dentro do carro, pergunto porque está tão longe da sua casa. Disse que estava procurando serviço, e desempregado, resolveu sair à procura pelas fazendas e sítios da região. Na sua juventude, foi domador de animais e, ultimamente, fazia alguns bicos de serviços rurais. Disse também que nunca ficou sem trabalhar, mas que tem medo da fome. Mora em uma casa em Duartina, de um amigo que gosta muito dele.
Quando pergunto sua idade, ele hesita por um momento e diz que sua cabeça “já não funciona muito bem” e que tem 65 anos. Não sabe ler ou escrever e veio de Minas Gerais quando tinha 20 anos. Rapidamente, ele tira sua identidade de uma carteira bem conservada no bolso de sua jaqueta. Observo no documento, a data do seu nascimento: outubro de 1925. Fico surpreso, pois aquele senhor de quase 80 anos (30 anos mais que eu e com a idade do meu pai) ainda tem disposição para procurar emprego. Pergunto se é casado, tem filhos, onde estão e por que não estão cuidando dele. Ele diz que os filhos é que, às vezes, precisam dele. Ironia.
Seria ele um imprevidente na sua juventude ou não teve oportunidades? Fico imaginando qual a real situação daquele pai, que nesta idade deveria estar recebendo pelo menos uma renda mínima, uma aposentadoria, que não fizesse ele sair e caminhar daquela forma.
E, também, tentando entender a situação de milhares, milhões de pais, nesta luta diária, nesta penúria. Como pode um país como o Brasil, celeiro do mundo, bonito por natureza, ter a segunda pior distribuição de renda do mundo (superado apenas por Serra Leoa), com 54 milhões e também 22 milhões de pessoas (45% da sua população) “vivendo” com um salário mínimo e deste, respectivamente, 505 anos depois do seu descobrimento?! Parece que algo não está funcionando nesta República como deveria!
José Aparecido Bordão Alves - advogado - OAB 235841 - RG 6.828.143