As escolas, nos últimos 30 anos, adotaram a curiosa estratégia da “fuga para o futuro”: incapazes de apresentar um conteúdo programático atraente e útil para os seus alunos, apostam na modernização tecnológica para “preparar” os jovens a viver no mundo moderno. As escolas instalam, num frenesi alucinante, estruturas informatizadas e estações multimídia para garantir que os jovens possam se adaptar convenientemente ao mundo do amanhã. O problema é outro: os jovens sabem - melhor até que os professores - se conectar à Internet; o que eles não sabem é falar com seus vizinhos...
Não adianta superequipar as instituições escolares com televisores, consoles, suportes e teclados interativos, porque a melhor maneira de se preparar alguém para o futuro consiste em valorizar a comunicação direta. E, nesta situação, a primeira forma de representação e de distanciamento em relação à realidade, construída pela humanidade - o teatro - é muito mais eficiente.
Os jovens não precisam de preceptores para utilizar as ferramentas de uma cultura de comunicação tecnizada. Eles precisam ter o que falar e saber se expressar. Tudo de que os jovens precisam está no teatro: fazer a experiência de seus corpos, no espaço, respeitar as regras de encenação, inventar as convenções indispensáveis para qualquer atuação, aprender a falar, criar uma realidade a partir de uma ficção, chamar a atenção de um público e aceitar a prova do tempo real são experiências indispensáveis e que transcendem a cultura da “cibersociedade”.
Não há qualquer relação entre ser um craque da Internet, conectar-se em redes e ser capaz de falar em público, decorar um texto, encená-lo, provocar empatia, suscitar a adesão e, o mais importante, criar emoção. E tudo isto se constrói com convenções simples, multimilenares, que dizem respeito ao deslocamento de alguns indivíduos em um cenário, sobre um palco que não precisa ter mais do que 100 metros quadrados.
As instituições escolares, em vez de investir gulosamente em complexos de técnicas sofisticadas e caras, fariam melhor em reconstruir teatros. Os parques multimídias enferrujam rapidamente, abandonados por crianças que possuem equipamentos mais modernos em suas casas (ou que não têm como usar equipamentos semelhantes no seu dia-a-dia). A escola não existe para rivalizar com a modernidade, mas deve levar o jovem a um outro mundo discursivo, cognitivo, simbólico. A escola deveria preferir a alteridade ao mimetismo, porque as melhores lembranças que temos das aulas estão ligadas às descobertas que fizemos. Escolas que se preocupam apenas com técnicas são incapazes de preparar alguém para o mundo. Além de tudo, Shakespeare é mais sábio que Bill Gates; Prometeu Acorrentado é mais interessante que qualquer manual de informática e Paulo Autran emociona mais do que um joystick.
O autor, Ney Vilela, é professor