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Música na veia

Cristiane Goto e Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 9 min

Conhecido nacional e internacionalmente como Derico, o músico paulista João Frederico Sciotti, 38 anos, é, o que possamos dizer, um artista nato. Isso porque o flautista integrante do sexteto do programa do Jô Soares é também cantor, pianista, guitarrista, violonista, saxofonista, baterista, percussionista, professor de música e escritor - só para citar algumas de suas especialidades.

Natural de São Paulo, Derico mora há dez anos em Indaiatuba, Interior de SP, e é casado há 17 anos e pai de dois filhos, Felipe, 15 anos, e Luiza, 8 anos, ambos músicos. A paixão pela melodia nasceu com o artista, revela ele, em entrevista concedida na última quinta-feira ao Jornal da Cidade.

Na ocasião, Derico se apresentou em Bauru juntamente com a banda local Sindicato do Jazz. A realização do show mesclou MPB, música instrumental e grande desenvoltura do artista nos palcos e resultará na gravação de um DVD ao vivo, antigo projeto de Derico que revela uma das multifacetas de sua carreira. Outros aspectos de sua trajetória foram compartilhadas com a equipe de reportagem. Veja a seguir.

Jornal da Cidade - Como você ingressou na carreira de músico?

Derico - Eu venho de uma família de músicos. Minha mãe e meu tio são pianistas. Meus irmãos são todos músicos e eu sou o caçula, também músico. Começei estudando muito cedo, com cinco anos de idade. Sou profissional desde os 11 anos de idade.

JC - Você começou tocando qual instrumento?

Derico - Começei com flauta doce, depois passei pela flauta transversal, saxofone, contrabaixo elétrico, violão, guitarra, piano, tive noções de percussão, bateria. Mas é mais uma noção básica do que um estudo de execução. Agora poder executar e poder trabalhar é flauta, saxofone, contrabaixo elétrico e violão. Estudei música formal com mestres em São Paulo, tive aulas de interpretação, arranjo, composição, harmonia, contraponto, depois aos 19 anos entrei para a faculdade na Santa Marcelina. Sou músico desde que nasci, mas hoje tenho outras ramificações não tão musicais.

JC - A família influencia a carreira?

Derico - Sem dúvida. No meu caso, tenho dois filhos são músicos. O Felipe, de 15 anos, toca guitarra e a Luiza, de 8 anos, toca piano. Acho que é uma coisa genética, meus filhos nasceram com essa vontade e talento. O Felipe com dois anos já assobiava, a Luiza canta de forma maravilhosa. Os instrumentos são manifestações do que o talento deles propicia. E eles começaram cedo.

JC - Com você foi assim?

Derico - Eu sempre gostei das coisas da história. Como eu começei a trabalhar muito cedo com música, eu já sabia que iria ser músico. Para mim não dependia de fazer uma faculdade ou teste vocacional. Então, com 19 anos, que queria poder passar por alguma coisa diferente. Por exemplo, ser antropólogo ou fazer arqueologia, mas a música passou a tomar conta. Minha vida toda sempre foi trabalhar muito com música sempre, abrindo projetos, tentando desenvolver possibilidade de audição de música instrumental em lugares diferentes.

JC - Em sua trajetória como músico, você teve muitas bandas?

Derico - Eu começei tocando numa banda de música instrumental chamada Ânima, em São Paulo. Nós participávamos de projetos na década de 70 com Itamar Assunção, Língua de Trapo, Ná Ozetti, Grupo Rumo - era a moçada da época que estava surgindo da USP, então fazíamos muitos circuitos universitários e centros culturais. Eu começei trabalhando com eles, dando aulas, até hoje, tenho uma escola em São Paulo, a Arte Livre. Aí começei a tocar com, cantores, virei curinga porque tocava sax, flauta e contrabaixo. E paralelo a isso tocava música erudita, com orquestras.

JC - Você transitou entre o erudito e o popular?

Derico - Sim, até a hora em que decidi ser só popular. Porque para continuar sendo erudito eu deveria sair do Brasil, fazer com que minha carreira deslanchasse. Eu não quis sair do País e decidi por um lado mais experimental. Aí tinha a escola, as bandas, acompanhava outros cantores, tocava na noite, em boates, clubes, na Boca do Lixo. Acompanhei shows de travestis. Transitei em todos os mundos, até que entrei no Jô nos anos 90 e a coisa deu uma certa direcionada.

JC - O programa do Jô foi uma marco na sua trajetória?

Derico - Como eu já tinha uma carreira e atirava em vários alvos, o programa do Jô me fez centrar um pouco mais, além de me dar notoriedde e abertura de portas, acho que uma das coisas principais foi o centro. Porque músico não tem fixo, ele não sabe quanto vai ganhar no fim do mês. Quando pintou essa possibilidade, começei a ver o que realmente era importante fazer. Aí tive a oportunidade de escolher os caminhos. E aí, naturalmente, as outras coisas deixam de te procurar. Você escolhe o azul e o vermelho deixa de existir na sua vida. Hoje, o projeto de gravar o DVD em Bauru com a Sindicato do Jazz representa o fato de começar a procurar o vermelho que nunca mais me procurou. Como sempre fui azul, ou seja, música instrumental e jazz, está na hora de um pouco de MPB, de cantor, voz e banda. E a coisa flui bem porque resolvi trabalhar com gente que é amigo. Hoje sou um cara mais calmo no sentido de não precisar ficar correndo atrás de tudo. Quando tinha 20 anos de idade, havia dias em que eu não dormia de tanto trabalho. Aí, não há saúde que agüente. Nem cabelo que fique na cabeça (risos).

JC - Como é o relacionamento entre os integrantes do sexteto do Jô?

Derico - Somos todos amigos. O Jô e os integrantes do sexteto são todos amigos e isso facilita muito o trabalho. Eu tenho um trabalho paralelo no programa do Jô que é um duo, eu e meu irmão e durante muito tempo eu toquei música erudita com minha mãe, ela no piano e eu na flauta. São coisas que facilitam o andamento do trabalho. Com Derico e o Sindicato do Jazz, por exemplo, acho que a possibilidade de dar certo é muito grande porque primeiro todo mundo se respeita e são amigos. Há um limite natural de consciência profissional e pessoal do músico saber para onde pode ir e até onde pode ir. Isso é muito importante num grupo. Já tivemos experiências que determinaram que é possível fazer nosso trabalho, existe mercado e demanda para isso. Temos alguns trunfos na mão, que é a notoriedade da banda aliada à competência de cada um. Então não estamos brincando de tocar, é um produto para nós colocarmos no mercado e fazer um trabalho digno onde todos tenham condições de viver e ter um rendimento. Hoje nós não apenas nos juntamos para fazer um som. Isso o programa do Jô me deu.

JC - Você tem tempo para se dedicar a sua família?

Derico - Tenho porque eu abdico algumas coisas. Eu pego a minha quinta-feira, por exemplo, e fico em casa, assistindo um DVD ou mergulhando na piscina. Ou fazendo nada, contando histórias, o importante é estar presente.

JC - Seu dia-a-dia tem uma rotina?

Derico - Mais ou menos. De segunda a quarta-feira eu gravo o Jô. Então normalmente eu acordo de manhã, agora eu estou cuidando um pouco mais de mim, então estou começando a fazer um regime forte e ginástica de manhã. Então estou melhorando um pouco essas coisas. Eu emagreci 15 quilos e preciso emagrecer mais. Na vida que a gente leva é muito difícil se propor e conseguir fazer um regime, por exemplo. Porque eu viajo e as pessoas querem te agradar, elas fazem jantares e almoços, falam para tomar uma cerveja, cachaça e doce gostosos. Ao mesmo tempo, se eu tiver um tempo para mim, faço uma esteira ou vou dar uma andada na cidade.

JC - Como é o seu relacionamento com fãs?

Derico - Eu não sou um Fábio Júnior, um sex symbol (risos). Sou uma pessoa conhecida da televisão e do programa do Jô, sou a escada e não o astro. Mas mesmo assim as pessoas têm muito carinho por mim, mas é um carinho que também é dado a todos, Bira, Tomate, Osmar, Alex e Jô. Então os fãs olham para mim e vêem o grupo e isso é bom e positivo. Esse carinho é uma retribuição ao nosso trabalho.

JC - Gostaria que você falasse um pouco de sua carreira como escritor.

Derico - Cada vez mais está sendo uma coisa prazeirosa. Eu não tenho grandes ambições, mas acho gostoso escrever. É um exercício importante e ao mesmo tempo um prazer muito legal. Eu tento, sempre que possível, estar escrevendo. Escrevo para jornal, tenho uma coluna que falo sobre tudo e é aberta. Tenho dois livros que são coisas que eu gostei de escrever dentro das minhas possibilidades e agora estou escrevendo meu terceira obra, que é um passo um pouco maior, é um texto mais elaborado. Uma história que requer uma pesquisa porque se passa em vários momentos. É uma idéia bacana.

JC - A obra tem previsão para ser lançada?

Derico - É muito difícil porque eu escrevo nas horas vagas e as horas vagas são vagas demais. Mas para mim é bacana porque escrever me abre a cabeça porque meu trabalho é como outro qualquer. Só tocar e não fazer mais nada além disso às vezes cansa. Tenho vontade de fazer outras coisas. E eu estou buscando fazer outras coisas que equilibrem minha vida para eu poder tocá-la com ainda mais prazer.

JC - Você se considera um profissional realizado?

Derico - Acho que um dos motivos pelo qual eu estou tendo essa ânsia de fazer coisas diferentes na área de música é porque eu cheguei num nível profissional na música que já me deu algumas coisas que eu achava vital. Só que eu não posso parar porque tenho 38 anos de idade. Ainda acho que tenho muita coisa para tirar e dar para a música. Pessoalmente eu tenho a vida inteira para me realizar, mas os filhos, minha esposa, estabilidade de determinadas coisas materiais que me dão prazer eu consegui através do meu trabalho. São realizações que se completam, mas ainda tenho muitas coisas a fazer. Realizações sempre vão existir.

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