O sol já está a pino. O relógio da Praça Rui Barbosa aponta 11h. Nesse local de intenso movimento de pedestres, área central de Bauru, um senhor, de 68 anos de idade, que tem o primário como grau de escolaridade, traja um terno cinza bem cortado, alinhado com uma camisa vermelha e sapatos pretos lustrados. Nas suas mãos, uma Bíblia. Em voz alta, ele prega o que nela está escrito, desviando, por alguns segundos, a atenção dos transeuntes que cruzam a praça a passos largos.
Evangélico da Assembléia de Deus, o sexagenário não se sente incomodado em levar adiante a sua missão de salvar almas em frente à Catedral Divino Espírito Santo. Cumpre essa tarefa solitária há três anos. Varme de Oliveira confessa que no passado freqüentou os redutos de prazeres carnais. “Foi no tempo da Maracangaiaâ€, diz, em referência à música de Dorival Caymmi “Eu vou para Maracangaiaâ€, que cantou e dançou em ensaios de escolas de samba na década de 50.
O aposentado, que vive em Bauru há 50 anos, afirma que prega em praças públicas porque é “louco por Deusâ€. Faz isso sem pedir nada em troca. “Sou um candidato a ir para o céuâ€, comenta. Oliveira acredita que suas pregações não passam desapercebidas das pessoas que cruzam a Praça Rui Barbosa - ou a Machado de Mello e Portugal, onde também freqüenta.
“Alguma coisa eles ouvem. Pelo menos duas ou três frases dos hinos que canto ou um dos salmos. Já tive casos de pessoas que pararam para relatar testemunhos de curas divinasâ€, comenta. O pregador da praça conta que recebeu o “chamado de Deus†para marcar presença em lugares movimentados há quatro anos, logo após a morte de sua mulher, Luzia.
“Quando ela morreu, entreguei minha vida totalmente a Deus. Eu estava no Alto Alegre numa missão de evangelismo pessoal, batendo de porta em porta. O chamado foi um milagre na minha vidaâ€, avalia. Ele calcula que dedica pelo menos três horas do dia à divulgação das mensagens bíblicas na Praça Rui Barbosa. “Só dou uma paradinha para descansar e beber águaâ€.
Embora a maioria das pessoas que cruza a praça não se incomoda com a pregação, o evangélico confessa que já foi insultado e já se viu enfrentando situações de chacotas. “Nesses casos, não retruco. Eu falo: ‘Deus abençoe’. Muitas vezes o ‘inimigo’ se torna amigoâ€, relata.
Mas o cumprimento da missão de Oliveira não se resume à pregação nas praças Rui Barbosa, Machado de Mello e Portugal. Sua rotina diária na divulgação da palavra de Deus começa bem antes das 11h, quando chega à Praça Rui Barbosa. Por volta das 5h30, ele já está pregando em núcleos de saúde, no Pronto-Socorro Central, nos hospitais da cidade e até mesmo em frente às delegacias de polícia.
Nem mesmo os chapeiros que buscam serviços nas rodovias que cortam o perímetro urbano escapam da pregação do aposentado. “Vou cumprir com essa missão até o fim da minha vidaâ€, garante.
Natural de Ibitinga (80 quilômetros ao norte de Bauru), Oliveira chegou em Bauru em 1955. Trabalhou em empreiteiras que prestavam serviços à Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e à Companhia Energética do Estado de São Paulo (Cesp). Se aposentou na função de vigilante. Antes de ser batizado na Assembléia de Deus, freqüentou a Igreja Batista Bereana. Durante um período de sua vida, de 1961 a 1998, portanto por mais de 30 anos, se afastou da religião. “A reconciliação ocorreu há seis anos, em 1998â€, finaliza.
Testemunhas de Jeová pregam nas casas
Conhecidos pelas tradicionais pastas de mão e pela pregação em duplas, as Testemunhas de Jeová são mais visíveis nas ruas nos finais de semana, principalmente aos sábados. Reconhecidos pela disposição em pregar o Evangelho, os fiéis batem de porta em porta na busca de novas conversões.
“A pregação nas ruas é feita para cumprimento de uma ordem bíblica. Jesus disse que as boas novas a respeito do reino de Deus devem ser pregadas em toda terra habitadaâ€, explica José Ubirajara da Nóbrega, membro do Salão do Reino das Testemunhas de Jeová.
Segundo ele, a maioria das pessoas visitadas em casa é “receptiva†aos fiéis. “As pessoas apresentam uma necessidade muito grande de conhecimento religioso, espiritual. É por isso que há uma gama muito grande religiões no mundoâ€, afirma Nóbrega.
Na avaliação dele, a humanidade enfrenta o “período do fim†e a pregação dos ensinamentos bíblicos e do Evangelho deve ser feita com urgência. “Timóteo fala que nos últimos dias aconteceriam uma série de coisas. Há uma urgência das pessoas em querer aprenderâ€.
Ele explica que os fiéis não são obrigados a cumprirem um período de horas nas ruas. “Há pessoas que trabalham uma hora por semana. Existem outras que trabalham dez, 20 e até mesmo 150 horas por mês. Isso depende daquilo que você sente como necessidade. A maioria de nós gostaria de ter tempo suficiente para trabalhar melhor para nosso criadorâ€, observa.