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'Hidrovia precisa de ação política'

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

O jornalista e empresário Carlos Nascimento defendeu ontem uma ampla articulação política para fazer com que a Hidrovia Tietê-Paraná deixe de ser um sonho para se inserir, de fato, no curso do desenvolvimento da região Central do Estado. Ele deu uma verdadeira aula sobre a hidrovia, em sua participação no encontro da Associação dos Municípios do Centro do Estado de São Paulo (Amcesp), na manhã de ontem, no auditório da Faculdade Gennari Peartree (FGP), em Pederneiras. Ele, que já visitou as principais hidrovias do mundo, enumerou vários pontos a serem estudados e debatidos pelas cidades da região para que a Hidrovia Tietê-Paraná decole, saindo do estado embrionário em que se encontra.

O jornalista alertou dezenas de políticos, empresários e lideranças presentes à reunião que, até recentemente, esta região era tida como a mais rica e promissora do Estado de São Paulo, mas que em pouco tempo poderá perder esse mérito uma vez que o Mato Grosso e o sul de Minas Gerais, por exemplo, reagem em ritmo acelerado. Porém, deu um alento: “Não há lugar no mundo onde a hidrovia não deu certo”, disse o jornalista no início de sua participação no encontro, que teve como um dos articuladores o jornalista Kleber Santos, da Produtora SP Centro.

De acordo com Nascimento, vários itens concorrem para que no Brasil a hidrovia, particularmente a Tietê-Paraná, ainda esteja engatinhando. Para ele, travam o processo o fato de as cidades estarem relativamente distantes das margem do rio Tietê e não serem de fato “abraçadas” pelos moradores dessas cidades, da hidrovia Tietê-Paraná não se encontrar com o mar e de faltar união política de prefeituras e associações de profissionais e empresas ligadas à exploração do potencial hidroviário, além de problemas estruturais como a falta de eclusas, rios mais limpos, pontes com espaço para passagem de embarcações, marinas, profundidade suficiente em alguns trechos, entre outros.

As cidades às margens do Tietê, avalia Nascimento, não estão empenhadas como deveriam para o desenvolvimento da hidrovia. “As cidades tiveram desenvolvimento ferroviário e rodoviário e, tirando Barra Bonita e Igaraçu do Tietê, as outras cidades estão muito longe em todos os sentidos da margem do rio. Mesmo aquelas que poderiam estar próximas, pensam para fora, não em direção ao rio”, disse.

Outro ponto desfavorável apontado por ele é o fato de ser uma hidrovia mediterrânea. Como ela não se encontra com o mar, dificulta a exportação por falta de logística adequada de transporte, ou seja, uma intermodalidade mais efetiva. “Este tipo de hidrovia necessita de transporte ferroviário e ou rodoviário nas duas pontas. Isso encarece porque tem que ter transporte de um local para outro”, frisa.

Falta um “xerife”

Na opinião de Nascimento, embora o Departamento Hidroviário tenha um profissional eficiente à sua frente (Osvaldo Rosseto), precisa de mais força política para fazer a hidrovia vingar. “Vou chamar de xerife. Alguém que tome conta, um órgão poderoso que possa resolver as questões que surgem com mais facilidade.”

As questões normativas e técnicas são apontadas como outro entrave para a Hidrovia Tietê-Paraná, segundo o jornalista. “Na esfera técnica temos, por exemplo, o calado (parte que fica submersa) das embarcações. Os armadores reclamam que o nível de profundidade para calado é insuficiente em muitas partes do rio. Outro problema é que os comboios têm que ser desarmados e depois recompostos porque não passam sob as pontes, retardando as viagens. Isso custa tempo e dinheiro extras”, frisa.

Na questão ambiental, para Nascimento falta chegar ao meio termo. “Durante muito tempo se fazia o que se queria nas margens dos rios. Agora não pode fazer mais nada. O Ministério Público, com todo a razão, tá pegando no pé de quem tem rancho, mas as usinas de açúcar plantam cana até dentro dágua. A lei tem que ser para todos e permitir que uma obra de beira de rio que beneficie a coletividade possa ser feita.”

Pesquisa

Uma pesquisa sobre a região, encomendada por Carlos Nascimento, apontou que as pessoas gostam do rio Tietê. “Elas gostariam muito de freqüentar o rio, mas as cidades estão distantes. As distâncias rodoviárias são longas e as pessoas não sabem o que fazer, faltam atrativos. A demanda existe, falta estrutura para acolher o turista”, avalia.

Na opinião dele, os políticos têm que entender o que é uma hidrovia. “Ela não é apenas uma via de transporte fluvial, ela tem toda uma história. O rio faz parte da vida das cidades, os prefeitos e vereadores teriam que visitar as regiões do mundo que são ligadas às hidrovias para trazer boas informações. A mais próxima é o rio Mississipi, nos Estados Unidos. Uma semana faria com que eles entendessem a dimensão”, completa.

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