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Unidos, vizinhos reforçam segurança

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 6 min

A boa relação entre vizinhos está se tornando uma arma poderosa contra a ação de ladrões e marginais em Bauru. A convivência harmônica e mais íntima entre moradores de vários bairros da cidade possibilita a troca de favores quando um precisa do outro. A questão da segurança é a mais solicitada entre eles. Quando um sai em viagem, o outro passa a observar mais a casa ao lado; recolhe jornais, alimenta o cachorro e rega as plantas.

A tática tem dado certo e inviabilizado as ações dos marginais. Moradora do Jardim América há 35 anos, um dos bairros mais visados de Bauru, Maria Aparecida Maturana Weckwert faz questão de manter boas relações com seus vizinhos e ajudá-los quando necessário. “Eu quase não saio de casa. Procuro ficar de olho no que ocorre na rua”, diz.

Ela faz parte da lista de vizinhos da rua onde mora dispostos a colaborar quando são chamados. “A solidariedade é importante. Se precisar, colaboro com as pessoas que viajam recolhendo jornais, lixo e alimentando cachorros”, comenta.

Prestativa, Weckwert está sempre pronta para ajudar. Suas ações são confirmadas pela vizinha, a economista Juliamar Silva Pedroso. “Temos uma relação supersaudável. Infelizmente, essa correria faz com que cada um leve a sua vida, impedindo de ver o que o vizinho do lado faz. É sempre importante poder contar com alguém”, observa.

Pedroso conta que a amiga está sempre alerta à movimentação na rua. “Qualquer ação suspeita, ela chama a polícia. Recentemente, Maria Aparecida viu um marginal pular o muro de uma outra vizinha e imediatamente acionou a Polícia Militar. A sorte é que a casa tinha cachorro e a rapidez com que o marginal entrou ele também saiu”, relata.

Nem mesmo um sistema de alarme monitorado é tão eficaz quanto os olhos ágeis de uma pessoa que podem ver situações suspeitas. A psicopedagoga Matilde Aparecida Motta Marquesini, moradora do Jardim Aeroporto há dez anos, não troca a vigilância constante e pessoal dos arredores de sua residência por um sistema monitorado de segurança.

Sua casa possui apenas um alarme convencional. “A melhor coisa é ter amizades. Sempre estou conversando com os meus vizinhos e pedindo para que olhem minha casa quando me ausento para viagem”, comenta. Atenta a tudo, ela já evitou que marginais roubassem um carro estacionado em frente a sua casa.

“O meu cachorro começou a latir muito. Quando fui ver, havia estranhos arrombando um carro. Imediatamente chamei a polícia”, relata. Para Marquesini, a boa relação que mantém com os vizinhos não pode ser encarada apenas como uma maneira de pedir favores. “Acho isso bacana. As pessoas precisam conversar mais”, sugere.

Conselhos de Segurança

A tática de adotar a boa relação entre vizinhos para evitar ações de marginais é incentivada pelos Conselhos Comunitários de Segurança (Consegs) de Bauru. A presidente do Conseg Sudeste, Jacqueline Didier, afirma que informalmente os moradores já praticam esse hábito. Moradora do Jardim Marambá, ela mesma diz que assim que se mudou com a família para o bairro fez questão de se apresentar aos vizinhos.

â€œÉ uma questão de bom-senso. Se seu vizinho não sabe que você viajou, como ele vai saber se a pessoa que está no telhado da sua casa é o cara da antena?”, questiona.

Também divide a mesma opinião o presidente do Conseg Centro/Sul, Nelson Scarpelli. “Acho isso excepcional. É preciso criar na cidade pequenas células de moradores. E isso não servirá apenas para discussão da segurança, mas para tudo. Se as pessoas se omitem, a marginalidade cresce”, diz. Sua posição é reforçada pelo secretário de seu Conseg, Pelegrino Bacci. â€œÉ preciso envolver as associações de moradores para viabilizar essa movimentação”, sugere.

Na vanguarda dos projetos comunitários, o presidente do Conseg Noroeste/Oeste, Osvaldir Martins, o Ticão, anuncia que sua região acaba de adotar o programa “Amigo do Quarteirão”. “A pessoa eleita para a função ficará encarregada de anotar os telefones de todos os vizinhos. O vizinho da frente vai passar seu telefone para o vizinho do fundo e do lado e assim por diante”, explica. Na avaliação dele, o melhor policiamento que existe é o do vizinho.

Mas na opinião da presidente do Conseg Leste, Fabiana Aparecida Trevisan de Lima, é preciso conhecer muito bem quem mora ao lado para poder compartilhar ações de segurança. “Em alguns bairros da cidade é necessário avaliar essa questão. O pessoal tem muito medo. Mas considero importante estreitar os laços com as pessoas que residem ao seu lado”, afirma.

Relação com a comunidade reforça Polícia Comunitária

A participação cada vez mais freqüente da comunidade nos destinos de sua segurança reforça a tese de que a implantação da Polícia Comunitária pelo governo do Estado foi uma decisão acertada. O subcomandante do 4º Batalhão da Polícia Militar do Interior (BPM/I), major Pedro Baptista Lamoso, acredita que a Polícia Comunitária é uma tendência mundial.

Ele observa que é cada vez maior o número de cidadãos conscientes de suas obrigações para a manutenação da segurança coletiva. â€œÉ o lixo acumulado em frente a uma casa abandonada que é recolhido pelo vizinho, é o mato alto de um terreno cujo proprietário é acionado, são vidros quebrados de residências desabitadas que podem abrigar marginais e que chamam a atenção dos moradores da redondeza. As pessoas estão mais ligadas com essas situações e tentam resolvê-las”, explica.

Lamoso classifica esse quadro como segurança primária. “Os moradores estão de olho na sua região. Se o cidadão fica fechado na sua casa, a segurança primária acaba não ocorrendo”.

Programa visa aproximar os moradores em bairro de SP

O Projeto Vizinho Legal, implantado pelo Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) de Vila Matilde, em São Paulo, também ganhou o Prêmio Franco Montoro de Participação Comunitária. O programa, implantado no ano passado, busca a aproximação e integração dos vizinhos no combate à violência. Também tem como objetivo diminuir as ações de marginais em roubos residenciais.

Segundo o presdidente do Conseg de Vila Matilde, Mauro Borges, é comum nas metrópoles brasileiras os vizinhos não se relacionarem devido a correria do dia-a-dia, que acaba dificultando a aproximação. “No nosso bairro, as pessoas viajavam e quando voltavam os ladrões tinham carregado tudo. Então decidimos criar o programa”, explica Borges.

Ele conta que num primeiro momento teve dúvidas se o Projeto Vizinho Legal iria deslanchar. “Um morador, durante a reunião do bairro, perguntou: ‘Será que não vai ser mais uma de tantas campanhas?’ Até eu fiquei em dúvida porque havia mesmo uma chance real de ser um fracasso. Começamos a nos aproximar mais e a coisa virou”, explica.

Após a apresentação do projeto, o presidente do Conseg percebeu que os moradores do bairro ficaram mais íntimos. “Percebi mesmo que o programo deu certo quando uma vizinha flagrou três pessoas em atitude suspeita conduzindo estranhamente um vizinho. Era um seqüestro. A polícia foi acionada e os marginais foram presos”, finaliza.

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