Fiquei um tempo sem ser visto por vocês. Agora espero estar sendo visto por alguém, algo que pode me distrair por uma carta inteira, o que eu não quero que aconteça. Antes eu só preciso deixar claro que eu escrevo existindo, no processo, no grito. Não para ficar de fora ou de dentro. Vou nescendo no meu escrito e percebendo, conforme os parágrafos vão crescendo, se eu estou dentro ou fora. Até dou uma revisada, quem não revisa acha que está muito certo de tudo.
E eu não posso dizer que estou certo de tudo. Quer dizer, tenho dezessete ano e estudo numa escola particular. Estou em uma das primeiras salas, algo que indica que tenho certos privilégios quanto ao conteúdo das auals e minhas provas são mais inteligentes do que as dos outros terceros colegiais.
Os outros terceiros colegiais são discriminados pois tem notas menores. Logo, são afastados, privados do conhecimento superior, ficando para sempre com seu destino de notas menores. O importante não é o quanto se pensa, mas o quanto se paga. Com um dinheirinho a mais eu até posso pensar e mudar seu filho para um alto escalão (existe esta nomenclatura). É um supermercado. Eles vendem e compram faculdades e universitários.
Como eu posso dizer que eu estou certo de tudo se eu não tenho prazer em ir a escola? Sabe, talvez seja erro do Límerson mesmo, meu mesmo, de alguém que responde por mim quando a injustiça declama seus versos tão... redondilhos. Acho que é melhor eu esquecer. Mentira, esquece tudo o que eu escrevi. Eu acho a escola particular uma maravilha, eu aprendo só o que cai no vestibular e fico rico. Largo a mão de ser burro e me preocupo com meu futuro financeiro.
Alguém grita:- Mas você não era assim!
- Dane-se, vai correr atrás da sua vida você também. Não tem mais o que fazer? Fica gritando bobagens. Você é quem? Deus?
- Sim
- Ah... eu esqueci que o Paiva fechou.
Não existe um prazer instigante em aprender e em provocar um mundo novo nas aulas de história. O que acontece são 50 minutos de um técnico falando o que eu devo estudar aqui e ali. Ele diz uma coisa e já completa que não tem importância. Ele fala, fala, fala naquele microfone e não se comunica. Uma masturbação da história, deve ser um sujeito muito feliz sexualmente.
Não sei nem por que ele ainda dá aula. Podiam gravar a aula dele e passar num projetor pra gente. Enquanto isso ele ficava na casa dela masturbando a história anti-didática que ele imagina. Eu mostrei este texto ao senhor meu digno professor de história, e ele me chamou de imbecil. Então, eu, imitando um poema do Manuel de Barros, me comovi com o elogio. Inventei aqui um jogo mental e escrevi este monte de mentiras daqui do vosso jornal. E fiquei por aqui, acabando com meus princípios. Não mudando a vida de ninguém. (Límerson Morales - um poeta ficcionista, autor de dias, estudante de teatro).