Cultura

F.UR.T.O. lança 'SangueAudiência'

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 5 min

Poesia e ritmo a favor da justiça social. Essa é a cara de “SangueAudiência”, primeiro CD do F.UR.T.O. (Frente Urbana de Trabalhos Organizados), que oferece nas letras e sonoridade o peso que o nome do álbum sugere.

Liderado por Marcelo Yuka, ex-baterista e letrista d’O Rappa, que perdeu o movimento das pernas após ser baleado em 2000, o grupo é um coletivo de artistas que se uniu para fazer da música e de diversas outras atividades artísticas um trabalho social.

Yuka é também letrista e produtor do F.UR.T.O. e toca baixo sintetizado e percussão eletrônica, entre outras atividades.

O álbum, um desabafo em um momento feliz - já que está de volta ao mundo da música - e delicado de sua vida - devido ao tratamento para recuperação das lesões que o obrigam a viver numa cadeira de rodas - reúne em 15 faixas um som que mistura samba, rap, maracatu, coco e muito groove. E traz à tona problemas cotidianos, principalmente a violência que impera nas grandes cidades - e da qual Yuka foi vítima.

Maurício Pacheco (guitarras e vocais principais), Garnizé e Jamilton “Jam” Silva (percussão) são os músicos apostaram no projeto F.UR.T.O. e que ajudaram a fazer desse sonho de Yuka algo real. Em entrevista ao JC Cultura, o letrista fala sobre o coletivo, sobre O Rappa e sobre sua recuperação. Confira alguns trechos.

JC Cultura - Como você avalia esse novo momento de sua carreira?

Marcelo Yuka - Estou muito feliz porque montamos um projeto que tem essa coisa do ativismo social que é tão importante como a música. E a participação da banda é muito forte nisso. Nesse período de concepção do disco, a banda foi muito compreensiva com meus problemas físicos. Tocando, compondo e escrevendo para o disco de alguma maneira eu estou reencontrando a pessoa que eu era antes dos tiros. A música tem me salvado. Estou tendo de novo o contato com o público e vendo que a semente plantada foi legal porque as pessoas têm muito respeito (pelo trabalho). Essa é uma virtude muito grande, talvez mais importante ou tão importante como sobreviver de música.

JC - Como funciona o coletivo?

Yuka - A idéia do F.UR.T.O. é ser um coletivo de artistas. Você está tendo acesso (através do CD) apenas à parte sonora que a gente produziu. É um coletivo de artistas que tem o mesmo ponto de vista e se expressa por mídias diferentes. É muito prazeiroso para mim ter esse lugar comum, esse cruzamento entre outras formas de expressão com o mesmo objetivo. Isso é um sonho que só agora estou conseguindo realizar. Parte do grupo mora junto e é como se fosse uma comunidade.

JC - Mas qual é o objetivo comum do coletivo?

Yuka - Nesse coletivo de artistas, tem um grupo que se chama Coletivo X (www.coletivox.com.br). São artistas e sociedade civil que se encontram para conversas sobre ações diretas contra a violência com dois objetivos claros: lutar contra o tráfico de armas e contra o abuso da autoridade policial. Mas a gente também tem uma rádio comunitária, um ateliê de serigrafia, luthier e, em breve, vai ter um selo de artistas que a gente admira e que não têm muita chance. São várias atividades que permeiam esse lado social. A música é o mais acessível. A cultura é a identidade do País e é através dela que estamos nos manifestando. A arte pode ser um espelho da sociedade e o artista tem por obrigação ajudar.

JC - O som do F.UR.T.O, que é bem mais pesado que o d’O Rappa, tem mais a sua cara?

Yuka - Tem mais a minha cara agora. Mas eu sou feliz com muitas coisas que eu fiz lá. Várias músicas ali me dão muito orgulho, mas eu sou imensamente mais feliz agora. Estou descobrindo essa felicidade agora por trabalhar mais em paz, sem tanta pressão. Eu acho que as diferenças ou as afinidades com O Rappa cada vez mais o tempo vai mostrar. É a opção de cada um, o que cada um fez para continuar tocando ou vivendo de música.

JC - Como foi a adaptação ao baixo e à percussão eletrônica?

Yuka - Foram coisas que precisei descobrir para me expressar musicalmente depois dos tiros, para me manter íntegro como músico e para sobreviver. Mas eu adoro isso. É claro que eu ainda me emociono com o fato de não poder tocar mais bateria. Mas, por outro lado, também me emociono com os garotos tocando na banda. São muito bons músicos e de alguma maneira estou perto disso e fazendo parte disso.

JC - Por que a participação da Marisa Monte?

Yuka - A Marisa é uma amiga muito legal. Está dentro do projeto trabalhar com pessoas que a gente gosta. Eu gosto dela como pessoa. Todas as participações no disco foram de amigos e pessoas que eu admiro. Gostei muito do resultado, achei muito legal. E nossa amizade ter gerado músicas eu achei muito mais legal.

JC - Seu processo de recuperação interfere na vida profissional?

Yuka - No momento, meu lado profissional está atrapalhando um pouco minha recuperação. Eu tenho dado muitas entrevistas e viajado muito nos dias da semana em que eu deveria estar fazendo fisioterapia. Mas, por outro lado, estou me ligando à pessoa que eu era quando estou trabalhando. O fato de produzir eu acho muito importante para um deficiente porque a sociedade só reconhece a gente de maneira mais humana a partir do momento em que você produz. Tudo tem um preço mas eu espero, em breve, quando passar o período de divulgação, ter uma semana mais regrada para os trabalhos físicos. Mas o corpo tem reagido bem, eu tenho tido mais sentidos, movimentos, mais sentimentos. Acho que eu tenho muita dor física porque minha lesão foi parcial. Mas eu tento conviver com isso da melhor maneira.

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