Tribuna do Leitor

Escola técnica estadual de Bauru


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A reportagem no JC de 9/6/05 traz a alvissareira notícia sob o título “Bauru terá escola técnica estadual”. Segundo a reportagem, o deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) anunciou que o Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza irá instalar uma escola técnica em Bauru.

Esclarece ainda a reportagem que a escola será instalada no prédio da Escola Estadual Rodrigues de Abreu.

Diz o provérbio: “Antes tarde do que nunca”. Comporta lembrar. No início da década de 1960, foi construído pelo Estado nos Altos da Vila Falcão, na rua Campos Salles, um grande prédio destinado à instalação de uma escola técnica profissional, semelhante à existente na cidade de Jaú. No entanto, terminada a construção, o destino do prédio foi alterado. As autoridades municipais e as forças vivas da cidade optaram pela instalação de uma faculdade de engenharia, paga, impedindo a instalação prevista, da escola técnica profissional estadual, gratuita. Criou-se a Fundação Educacional de Bauru (FEB), instituição de direito público municipal, como entidade mantenedora da faculdade. A Prefeitura Municipal fez constar em seu orçamento, verba correspondente a 2%, destinada à FEB, que recebia também verbas da União e do Estado, inclusive mensalidades pagas pelos alunos.

Nos anos de 1980, os cursos mantidos pela FEB foram estadualizados e encampados pela Unesp. Grande área de terreno doada pela prefeitura, na Vargem Limpa, tornou-se câmpus da Unesp/Bauru.

O fato ocorrido, preterindo a instalação de uma escola técnica estadual gratuita, pela instalação de uma faculdade de engenharia paga, mostra bem que o Brasil, como sociedade de classes com forte resquício de aristocracia, sempre esteve voltado para os interesses das camadas privilegiadas, dominantes, em prejuízo das camadas menos favorecidas. Os filhos que no passado foram fidalgos, tinham por objetivo o curso universitário, o desempenho de cargos políticos e o comando econômico-social. Em 2005, no governo do Partido dos Trabalhadores o Ministério da Educação lança o programa “Universidade para todos”, quando a educação básica ainda não está universalizada.

A própria escola primária dos antigos grupos escolares, era uma escola formalmente seletiva, intelectualizada em seus métodos e processos, objetivando preparar seus alunos ao prosseguimento dos estudos para o ensino médio e superior. Entre o curso primário e o ginásio havia o obstáculo do exame de admissão à primeira série ginasial, instrumento dessa seletividade, que reprovava de 60% a 70% dos egressos da escola primária que não podiam freqüentar os cursos preparatórios pagos. Aos excluídos restava o ingresso no mercado de trabalho, muitos deles procuravam o Senai - Escola João Martins Coube.

Passados mais de 40 anos, Bauru vai ter a sua escola técnica estadual tão esperada. Se por um lado é motivo de satisfação saber que Bauru conquistou uma escola técnica estadual, por outro lado, é lamentável a desativação da Escola Estadual Rodrigues de Abreu, de educação geral, para em seu prédio instalar a escola técnica do Centro Estadual de Educação Técnica Paula Souza.

Alegar salas de aula ociosas em uma escola, remanejar professores, alunos e funcionários para outra escola para uso do seu prédio, é inconcebível. Salas ociosas quer dizer que não têm ocupação. Este conceito não é correto para se aplicar para salas vazias. Salas vazias em escolas públicas devem ser motivo de preocupação. Pois, será falta simplesmente de clientela escolar? Não, trata-se de exclusão involuntária do alunado. A rede escolar pública que adota o sistema de educação progressiva, popularmente chamada de promoção automática, precisa ocupar as salas vazias para acompanhamento dos alunos com dificuldade de aprendizagem, eliminando a crítica de que os alunos das escolas públicas mal sabem ler e escrever.

Não se admite mais na sociedade atual escolas apenas com sala de diretoria e salas de aula. É necessário que primeiro as escolas funcionem em regime de tempo integral, sejam dotadas de sala de enfermagem aparelhada com profissional habilitado para atendimento de primeiros socorros na área da saúde; coleta de sangue, de fezes para exame de laboratório; teste de acuidade visual; sala de atendimento de assistência social escolar, com profissional habilitado; biblioteca com sala para leitura, sala de informática, etc.

Assim exposto, por que não instalar a escola técnica estadual de Bauru no prédio que foi construído nos Altos da Vila Falcão, justamente para a instalação de uma escola técnica profissional? O Conselho Municipal de Educação, como órgão normativo da política educacional no município, foi consultado? Finalmente, educação é investimento, não gasto sem retorno. Ou se investe na educação antes, para não gastar depois, com a construção de prédios para a Febem para abrigar delinqüentes, com manutenção dispendiosíssima, muito, muito mais do que se aplica na educação regular.

Rodolpho Pereira Lima - professor aposentado do magistério estadual

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