Regional

Exterior quer produto de qualidade

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Garça - O melhor café do Brasil, na opinião do cafeicultor José Renato Serra, está sendo cultivado no Sul de Minas e no serrado mineiro. “Lá, tem café de qualidade superior. Nós estamos aprendendo. Para adequarmos a essa qualidade superior e sermos competitivos com a cafeicultura mineira tivemos que fazer o café cereja descascado.”

Ele lembra que a opção da família, que é tradicional na agricultura cafeeira, foi feita na década de 90. “Optamos por uma cafeicultura diferenciada. O mercado estava exigindo um café superior. Tivemos que sair um pouco da commodite e tentar fazer um café gourmet.”

Serra explica que todos os tipos de cafés nascem da mesma planta. “A diferença fica por conta do estágio de maturação. O café é um só. Muitas vezes, você colhe o café cereja, o verde e o passa no mesmo pé.”

A tradição da colheita no Brasil é eliminar todos os grãos da árvore. “Quando se faz isso, você tem cafés de vários estágios, de diferentes maturações juntos. Você coloca tudo no terreiro para secar. Para ter qualidade diferenciada, é muito mais difícil.”

O café superior, chamado de cereja é colhido no ponto certo. “Ele é colhido vermelho, quando seu poder de sacarose é maior. Em seguida, é lavado e separado em uma máquina. O café verde só com verde. Cereja só com cereja e passa só com passa. São cafés de diferentes umidades.”

Após a separação dos grãos, o café cereja é mecanicamente descascado. “O aroma desse café é diferente. Temos conseguido vender para empresas italianas com sobrepreço interessante, cerca de 30% sobre o preço do café comum. Importante dizer que eu consigo fazer isso apenas com 30% da produção, porque o período de colheita é curto.”

Serra conta que planta café em 300 hectares. “Na safra de ano alto, chego a colher 15 mil sacas. Mas em safra de ano baixo, como é este, cerca de 8 mil sacas.”

De acordo com o produtor, em um ano o café produz uma safra boa, onde a produção atinge o seu ponto máximo. No ano seguinte, a safra é bem menor, muitas vezes, a metade.

Gotejamento de água

Há cinco anos, os cafeicultores sofrem com a crise no mercado mundial de café, comenta o produtor José Renato Serra. “Além disso, na região de Garça, temos enfrentado os ‘veranicos’, que prejudicam a produção. Para evitar isso, parti para a irrigação.”

A técnica, segundo ele, influencia na produtividade. “Em fevereiro deste ano, tivemos um veranico. Eu não tive problema porque minha lavoura é irrigada e o crescimento foi normal. Muita gente vai ter quebra na produção em função disso. Tem produtor perdendo safra, ano após ano.”

Ele explica que o café precisa de água em todas as fases. “Não pode faltar água de maneira alguma na florada, em setembro e outubro. Depois, na formação do fruto, na época do verão.”

A técnica de irrigação por gotejamento evita o desperdício do líquido e fornece a planta a quantidade que ela necessita. “A irrigação fornece água exatamente naquele momento em que a planta precisa.”

O café é uma cultura perene, não é do dia para a noite que o produtor pode trocar de atividade. “Temos as fazendas já montadas, já gastamos para construir. “O setor cafeeiro empobreceu muito. Estamos vendo a luz no fim do túnel a partir de 2005.”

Os preços melhoraram e os produtores estão otimistas. “Estamos começando a respirar novamente. O mercado mundial está muito justo, estamos acreditando que vai ocorrer uma estabilidade de preços, nos próximos dois ou três anos.”

Serra argumenta que ainda não está valendo a pena. “Estamos pensando a médio prazo. Este ano está bom, melhorou, só que nos pegou numa safra de baixa, então não vamos conseguir saldar as dívidas. A partir de 2006 com a perspectiva de uma safra boa, acho que poderemos respirar novamente.”

Café viajante

O cafeicultor não sabe exatamente para quem já vendeu seu produto. “Era a Garcafé que vendia para nós toda a safra. Outras empresas compravam direto. Mas não sabemos exatamente para quem o nosso café era vendido. O café de melhor qualidade vai para a exportação e outra parte para o mercado interno. Sei que vendi café para a Itália.”

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Título perdido

Garça já chegou a ser o município com maior produção de café do Estado de São Paulo. Hoje, perdeu o título e dificilmente voltará a ser um expoente de produção no País. Esta é a opinião do cafeicultor, José Renato Serra.

Para ele a fragilidade da cooperativa Garçafé vai interferir . “Nós vamos ficar sem referência, sem ter uma empresa que nos apóie, tanto em compra de insumos quanto na venda do nosso produto. Para a colocação do nosso café no mercado internacional, nós vamos sentir muito a falta da Garcafé.”

Serra acha natural que ocorra uma transição para outras culturas. “Muitos pequenos produtores morreram. Acabaram saindo da atividade porque não agüentaram. Especialmente aqueles que não tiveram acesso ao crédito agrícola com juros subsidiados. Eles praticamente foram alijados do mercado. Esses partiram para culturas de soja, milho, amendoim e mandioca.”

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