Pedro e Maria viviam em uma pequena cidade do interior do Estado de São Paulo. Os dois eram jovens e já namoravam há quase dois anos. Um certo dia, Pedro comunicou a sua namorada que havia recebido uma oportunidade de emprego na cidade de Cuiabá e que resolvera aceitar a proposta. Assim, ele teria uma condição financeira melhor para poder oferecer aos dois um futuro próspero e tranqüilo.
Maria não ficou nada feliz com a notícia, mas se resignou diante da promessa do rapaz de voltar e de terem um futuro financeiramente melhor. Um mês depois, Pedro estava em seu novo emprego na capital do Mato Grosso e toda a semana se correspondia por carta com Maria. Semanalmente o rapaz escrevia à namorada contando sobre sua vida e seu trabalho e semanalmente a jovem respondia suas cartas demonstrando a saudade que sentia de sua companhia.
O tempo foi passando e o rapaz começou a perceber que as cartas da moça tornavam-se cada vez mais escassas. Pedro continuava a escrever toda a semana, mas recebia de Maria somente uma carta a cada duas ou três semanas. Mais alguns meses se passaram e, apesar do rapaz continuar a escrever no mesmo ritmo, a jovem respondia somente no final de cada mês. Esta situação permaneceu até que se completaram três meses sem nenhuma carta de Maria. Pedro ficou, então, preocupado e resolveu tirar umas férias do trabalho para poder visitar sua amada.
Chegando à sua cidade, o rapaz foi imediatamente ao endereço de sua namorada. Ao apertar a campainha, a mãe da moça atendeu. “Olá, a Maria está?”, perguntou Pedro. “A Maria não mora mais aqui”, respondeu a senhora. “Não mora mais aqui?”, ficou espantado o rapaz. “Sim”, respondeu a mãe com a maior serenidade. “Na semana passada, a Maria casou-se com o carteiro”, disse.
Na Bíblia, mais precisamente na primeira carta de São João, encontramos duas frases que são extremamente realistas e profundamente teológicas. A primeira diz “Ninguém jamais viu a Deus”. Realmente, se falamos em Deus, se acreditamos em Deus estamos falando e acreditando em uma realidade imensa demais para os olhos humanos. Esta racionalidade que chamamos de Deus deu origem a todo universo e à vida. Universo do qual não sabemos ainda os limites e vida sobre a qual conhecemos muito pouco. Se Deus existe, Ele não se revela de uma forma visível a nossos olhos. Mas, se não podemos ver a Deus, podemos sim experimentá-lo. Neste sentido encontra-se a segunda frase da carta de São João: “Deus é amor”. Com ela, João procura nos dizer que podemos fazer a experiência profunda de Deus através de um sentimento nobre ao qual damos o nome de amor.
Através da experiência de amar e ser amado nos aproximamos de nossa compreensão do que seja Deus, porque nesta experiência nos sentimos verdadeiramente vivos. O sentimento de amor é fundamental para o nosso desenvolvimento como pessoa humana. Triste a pessoa que nunca foi amada e triste a pessoa também que nunca conseguiu amar alguém. O amor que nos faz ser mais gente, o amor que nos faz ser mais humanos, o amor nos faz sair da periferia da vida e entrar em sua essência valorizando aquilo que deve ser realmente valorizado em nossa passagem por esta existência. Infelizmente existem milhões de jovens em nosso país que não foram amados em sua infância e por isso possuem grande dificuldade em amar alguém concretamente ou amar a nossa sociedade. O amor é fundamental para a nossa realização pessoal e social.
Graças a esta importância do sentimento de amor que teologicamente podemos defini-lo como experiência de Deus, ou a verdadeira morada de Deus. Costuma-se afirmar que as igrejas são as casas de Deus, mas a mais profunda e sólida morada divina é o amor que pode surgir entre os seres humanos. “A vida é um sono de que o amor é o sonho, e vós tereis vivido se houverdes amado” (Alfred de Musset).
O amor, porém, não pode ser idealizado. Qualquer sentimento humano deve ser acompanhado pela razão. Para que o amor seja realmente uma verdadeira experiência de Deus é necessário que ele seja, pela razão humana, compreendido, dialogado e orientado. Toda forma de amor vale a pena. Mas também é verdade que toda forma de amor, seja de pais para filhos, de amigos, de irmãos ou de amantes, pode se tornar dependência doentia, posse, submissão ou anulação da personalidade, caso o amor não esteja acompanhado da razão.
No que diz respeito ao amor entre amantes é necessário compreender que um verdadeiro relacionamento amoroso nunca é a fusão de duas metades, mas sempre a aproximação de dois inteiros. Em outras palavras, o amor é essencialmente dialogal. Relacionar-se, principalmente amorosamente, não é um movimento unilateral, mas depende da interação entre duas pessoas que possuem livremente a vontade de compartilhar a vida juntos sem deixar de ser elas mesmas. “A virtude da humanidade consiste em amar os homens; a prudência, em conhecê-los” (Confúcio).