Ser

Você ama na medida certa?

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

“Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe...”. A frase, conclamada no sacramento do matrimônio, não é escolhida à toa. Pelo contrário. Ela define o conceito de amor segundo a visão cristã, sentimento nem sempre vivenciado em perfeita comunhão entre os casais.

De acordo com o livro “Entrelinhas do Cotidiano”, da psicanalista paulistana Anna Veronica Mautner, uma das maiores dificuldades das pessoas não é encontrar o companheiro ideal, mas conservá-lo. Nesse cenário, podem surgir ciúmes, brigas excessivas e co-dependência, comportamento que pode provocar insegurança e sensação de anulação por uma das partes envolvidas na relação.

“Relacionar-se e chegar a construir família com um parceiro em clima de perfeito entendimento e objetivos comuns é cada vez mais raro. No mundo atual, as pessoas têm tantos estilos, ritmos, sonhos, possibilidades e desafios que é difícil imaginar um futuro comum, com estabilidade afetiva, alegria e satisfação para os dois. A solução está em ajustar-se, lidar com retrocessos e domar as ilusões”, diz a autora.

A psicóloga bauruense Eglê Allegro explica que o amor é a energia que movimenta toda a humanidade e impulsiona para a vida. Segundo ela, para a maioria das pessoas, esse sentimento representa uma força que leva as pessoas a enfrentar todos os medos, tornando-as corajosas e ousadas, prontas a desafiar o tédio e o comodismo do cotidiano.

Justamente por conta das dificuldades, o amor pode, em muitos casos, enfrentar cenários difíceis para sobreviver. “Há uma grande confusão entre o amor verdadeiro e o ‘amor de troca’, que é uma conduta usada como ‘moeda’ e que dá direito a cobrar determinados comportamentos dos companheiros”, diz.

“Amar não é viver assustado, procurando o que o parceiro quer para obter sua aprovação ou temendo o seu mau humor. O amor nos dignifica e nos faz sentir que pertencemos à raça humana, nos proporciona uma sensação de gratidão para com a existência e um sentimento de ser abençoado por Deus”, complementa Allegro.

É esse sentimento de respeito que norteia o relacionamento da estudante de direito Manuela Arantes Pereira, 23 anos, e do contabilista Elder Wilson da Silva, 28 anos, namorados há mais de sete anos. Embora já tenham passado por diversos problemas e algumas brigas, o amor e a confiança mútua sempre ocuparam lugar de destaque na convivência dos dois. “Nos amamos muito e pretendemos nos casar em breve”, diz ela, com a certeza madura de quem encontrou o verdadeiro amor.

Viagem sem limites

“Amar é se comprometer sem garantias”, define Eric Fromm no livro “A Arte de Amar”.

Amar é uma espécie de viagem, na qual, ao mesmo tempo em que desfrutamos dessa entrega, desvendamos os mistérios que ela nos apresenta a cada momento, ressalta Allegro.

“O amor pode suportar conflitos, ciúmes, falta de dinheiro, crises de ansiedade, mas não pode suportar a indiferença, a traição, a mentira e o desprezo. No amor, como em tudo, há um limite de resistência, e quando se exige demais, é grande o risco de rompimento”, defende.

Foi o que aconteceu com o dentista Vinícius (preferiu não ser identificado), 26 anos. Há cerca de sete meses, ele se separou de uma namorada com quem conviveu há quatro anos. “Nossa relação estava desgastada. Era pautada pelo ciúme excessivo dela. Além disso, cheguei a me anular por conta disso. Deixei de conviver com meus amigos e até de tocar guitarra, uma das minhas paixões”, revela ele.

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Co-dependência

Co-dependente é uma pessoa que deixa o comportamento de outra afetá-la e é obcecada em controlar o comportamento dessa outra pessoa, explica Melody Beattie na obra “Co-Dependência - Pare de Controlar os Outros e Cuide de Você Mesmo”.

“A co-dependência é deflagrada por relacionamentos com pessoas severamente doentes, sejam problemas de comportamento ou distúrbios compulsivos destrutivos. É uma doença crônica e progressiva, sugerem os especialistas que os co-dependentes precisam de pessoas doentes em volta deles para estar felizes de uma maneira não saudável”, explica a psicóloga Eglê Allegro.

Em relação ao amor, o ideal é que as pessoas procurem suas referências dentro de si próprias, aponta Allegro. “Para nos sentirmos confiantes, seguros, tranqüilos, com vontade de nos divertir e amar, é fundamental que estes sentimentos sejam nossos, independente de qualquer outra pessoa”, diz.

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