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Ente querido dos bonsais

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 8 min

De gerente geral de uma multinacional japonesa a um dos principais bonsaístas de Bauru e região, Luiz Yassuo Nakamura, 52 anos, faz parte da terceira geração de japoneses que são mestres na arte de cultivar miniplantas inspiradas nas filosofias budista e taoísta (baseada no amor e respeito pela natureza).

Descendente da família Nakamura - que teve origem com antigos samurais em Fukuoka, no Japão -, ele é católico e simpatizante da visão reencarnacionista do budismo. “Acredito na relação indireta de espíritos e bonsais”, revela ele.

Nascido em Lins, em 10 de fevereiro de 1953, ele mora em Bauru há quatro décadas. Pai de dois filhos, o advogado Eriky e a designer Erika, de 25 e 24 anos, Nakamura se aposentou há cerca de sete anos, época em que se separou da esposa e também passou a se dedicar com mais exclusividade à arte de cultivar bonsais.

Esses e outros assuntos foram revelados em entrevista concedida na última semana ao Jornal da Cidade. Confira outras características da personalidade e do trabalho de Nakamura a seguir.

Jornal da Cidade - O senhor é neto de um bonsaísta. Como começou seu trabalho como criador de bonsais?

Luiz Nakamura - Houve uma interrupção. Meu tataravô fazia, meu bisavô interrompeu, meu avô interrompeu e eu faço. Meu filho está interrompendo e eu não sei como vai ser depois.

JC - Existe um pré-requisito para cultivar bonsais? O que é necessário?

Nakamura - Não. Na verdade, é preciso gostar da natureza, é a primeira coisa. Ter isso como hobby, além da força de vontade, porque o pessoal esmorece muito rápido. É como tirar carteira de motorista. Se as pessoas tiram e não dirigem, acabam esquecendo. Em relação aos bonsais, quanto mais se faz, mais o trabalho ganha perfeição.

JC - O senhor falou em perfeição. O cultivo de bonsais está ligado à perfeição?

Nakamura - Não. Sempre estamos em busca da perfeição. Não existe perfeição. Como o ciclo de vida de um bonsai é milenar e o ser humano é, vamos dizer, centenário, a pessoa nunca faz um bonsai para ele, mas para as futuras gerações.

JC - Além da arte técnica, quais são os segredos para se cultivar um bonsai?

Nakamura - Quando se faz, normalmente se pensa só no presente. No passado não, e no futuro também. A filosofia do bonsai, o futuro está ligado à conscientização da ascendência, para os futuros filhos, netos e bisnetos darem seqüência. No Japão há 22 gerações de bonsaístas, famílias que praticam o bonsai há 22 gerações.

JC - Em Bauru há quantos bonsaístas?

Nakamura - Praticantes devem ter umas 50 pessoas colecionadoras.

JC - O senhor é o único que comercializa bonsais na cidade? Por quê?

Nakamura - Sim. Quando eu trabalhava tinha uma vida muito corrida e estressante, era gerente-geral de uma multinacional japonesa em Lençóis Paulista, trabalhando na área de recursos humanos por 28 anos. Nos últimos cinco anos de carreira nessa empresa, assumi a gerência-geral. Entrei na empresa quando tinha mais ou menos 23 anos, logo quando casei. Eu já namorava há sete anos e casei com minha única namorada. Ambas as famílias eram japonesas e tradicionalistas. Então, quando casei, com 23 anos, tinha a responsabilidade de ser pai, apesar de ter demorado uns três anos, fui pai com 26 anos e, na época, era chefe de RH e também da minha família. Por conta do trabalho, eu sempre viajei e fui meio ausente. Quando me separei, em 1999, em 2000 definitivamente fiz pressão para sair e me demitir da multinacional.

JC - E nessa época o senhor já cultivava bonsais?

Nakamura - Já. Eu explicava para meus filhos que eu era de família pobre, tive sorte de arrumar um bom emprego e fiz de tudo para dar as melhores escolas para meus filhos, só que eu sabia que precisava garantir mais alguma coisa para o futuro, além da minha aposentadoria. Então, resolvi montar bonsais porque cada vez que eles ficam mais velhos, mais valor eles têm. Para mim seria uma poupança futura e para meus filhos também. Comecei a cultivar em 1998.

JC - O senhor teve algum mestre?

Nakamura - Fui autodidata. Tinha noção de algumas técnicas e também contava como mestre Hidaka, que é de Atibaia e é o maior bonsaísta da América Latina. Ele foi meu professor.

JC - Como o senhor define a arte de cultivar bonsais?

Nakamura - Bom é uma palavra japonesa que vem com dois ideogramas: o “bon” significa uma árvore e o “sai” um recipiente ou bandeja baixa. O sentido literal da palavra significaria árvore numa bandeja. O bonsaidô é o praticante do bonsai. O “dô” dessa palavra significa via para auto conhecimento e desenvolvimento pessoal. Quem é praticante encontra o sentido de cultivar plantas objetivando o desenvolvimento pessoal. Tanto é que quando fazemos um paralelo com a técnica de relaxamento do ioga, se usa técnicas de respiração, concentração e de relaxamento cultivando bonsais. Porque quando projetamos um bonsai, o projetamos como se fosse um desenho. Antigamente, os japoneses pegavam um determinado desenho de árvore e a projetavam para o futuro desenhando em carvão na telas de seda, almejando que a planta que era tratada e cultivada diariamente iria se transformar naquele desenho exposto no projeto inicial. No meu caso, eu sempre fui muito ansioso e agitado.

JC - Mas não é o que o senhor aparenta...

Nakamura - Hoje, não. (risos). Mas eu sempre fui elétrico e ansioso como meu filho Eric. As pessoas falavam que eu era ‘ligado’ 24 horas. Com o passar do tempo fui dominando o ímpeto natural através dessa técnica de relaxamento. Na infância pratiquei judô, mas o que realmente me deu essa paz interior foi o bonsai mesmo. Porque a minha ansiedade foi controlada com os bonsais, quando fazia coisas, queria pronto para ontem.

JC - O bonsai é uma forma de canalizar suas energias na natureza?

Nakamura - Sim. E existe a recíproca também, a natureza passa suas energias para mim também. Por exemplo, em relação ao respeito à natureza, é preciso saber respeitar o ímpeto natural da planta e saber que seu crescimento é natural. Não adianta xingar ou torcer para que ela cresça porque cada planta é de um jeito. Então, aprendi a entender o ímpeto natural de cada espécie e isso me ajudou a controlar a ansiedade.

JC - De que forma o fato de ser bonsaísta contribui para sua vida?

Nakamura - É um hobby que exige dedicação e força de vontade. E isso me tira um pouco das outras atividades. Eu tenho dois mil ‘filhos’ na coleção. Talvez pelo fato de eu estar tratando os bonsais como filhos eu tenha deixado de lado minha família e meus filhos. Eu esqueci de ser pai e das obrigações, não no sentido financeiro, mas emocional. E sinto falta disso até hoje. Quando trabalhava na multinacional eu acordava às 6h e voltava depois das 20h para casa. Cada um tinha seu quarto, sua tevê e seu micro. Já minha esposa ficava 24 horas com meus filhos.

JC - Existem espíritos bons e ruins nos bonsais, como algumas pessoas costumam pensar?

Nakamura - Nessa parte eu não acredito. Mas se a pessoa criar bem um bonsai, bom ele será, assim como um filho. Se educá-lo bem, retorno terá.

JC - O senhor acredita ser uma espécie de filho dos bonsais?

Nakamura - Acho que sim, porque meu tataravô era descendente de samurais. Era a família Nakamura, que significa muralha intransponível.

JC - O bonsai também é sua paixão? O senhor se imaginaria não cultivando bonsais?

Nakamura - É difícil, minha intenção, se pudesse não comercializar, fazer só para mim, era bom, mas tenho no cultivo dos bonsais um complemento para minha aposentadoria. Para mim ainda é uma fonte de trabalho, se eu pudesse viver de uma aposentadoria, seria ótimo.

JC - Qualquer pessoa pode cultivar um bonsai? Existe um pré-requisito ou característica necessária para ser um bonsaísta, como ser paciente?

Nakamura - Sim. Mas acho que a paciência é um desafio. Os monges budistas criaram a técnica dos bonsais. Os samurais recebiam as plantas, mas não as cultivavam porque eles eram os grandes governadores das províncias. Os samurais tinham seus nomes gravados nos bonsais, mas os jardineiros eram os monges budistas. E as regras que uso hoje não são do taoísmo chinês, mas do budismo japonês, que criaram as regras estéticas como a relação homem, céu e Terra.

JC - Como é essa relação de equilíbrio para o senhor?

Nakamura - Buscamos sempre colocar em primeira instância essas regras estéticas criadas pelos monges budistas, principalmente a assimetria, a triangulação, não só o eqüilátero como as formas; porque aí se reverencia o homem, céu e Terra. O céu é representado como um quadro chinês, a Terra é representa pelo bonsai. O bonsai também é representado um homem, que deve ser cuidado e cultivado.

JC - Quais características do Luiz Nakamura estão presentes nos bonsais?

Nakamura - Eu utilizo o tronco curvado como o “S” do Senna, que é meu ídolo até hoje. Perseverança, determinação e força de vontade, porque para ser bonsaísta não é recomendado para pessoas ansiosas. Mas eu encarei como um desafio e resolvi quebrar essa tabu.

JC - E o senhor quebrou esse tabu?

Nakamura - Sim.

JC - E hoje, o que um bonsai feito pelo senhor traz?

Nakamura - Acima de tudo beleza. O fato de alguém sempre estar me elogiando eleva minha auto-estima. Para mim é uma fonte de inspiração, e quanto mais eu faço, mais eu recebo, é uma troca recíproca. Hoje em dia, apesar de ser pouco conhecido, as pessoas têm o prazer de ter um bonsai meu. Isso me deixa muito feliz.

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