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Deficiente 'vê luz' para a inclusão

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 3 min

Enxergar através das mãos, do cheiro, da audição e ter noção de espaço para se conquistar autonomia. Essa é a meta de um grupo de 900 portadores de deficiência visual, com idades entre zero e nove anos, que freqüentam o Centro de Distúrbios da Audição, Linguagem e Visão (Cedalvi) do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (Centrinho), ligado à Universidade de São Paulo (USP).

Esse é o primeiro passo para a inclusão social desse grupo de portadores de necessidades especiais que recorreu ao Cedalvi para pedir orientação. O centro, que é composto por uma equipe de profissionais multidisciplinares e funciona desde 1987, também atende a deficientes auditivos. As atividades com os cegos começaram a ser desenvolvidas em 1991.

A cegueira em crianças e adultos ganhou palco de discussão com a novela “América”, da TV Globo, cujo enredo apresenta dois atores deficientes visuais: Marcos Frota (50 anos), que interpreta o personagem Jatobá, e Bruna Marquezini, que vive a garota Maria Flor (9 anos).

Na vida real, a situação vivida pelos portadores de necessidades especiais não é muito diferente do que é apresentado na novela. Detectado o problema, a decisão mais importante é procurar orientação o quanto antes. É o que prega a pedagoga Suzana Rabello, especializada em deficiência visual.

“A maioria das crianças chega aqui com dois anos de idade. O ideal é chegar antes”, recomeda. Os garotos e garotas com problemas de visão que freqüentam o Cedalvi têm atendimento que varia de uma a três vezes por semana. Eles são orientados, durante 50 minutos por sessão, para ganhar autonomia dentro de casa.

Na avaliação dela, a novela fomentou a discussão sobre o tratamento que deve ser dado aos portadores de deficiência visual. “As personagens da novela são bem caracterizados. O uso do cachorro da raça labrador adestrado é uma boa dica para os adultos acima de 16 anos que tenham porte físico para suportar o peso e controlar o animal. E a lei realmente permite que os deficientes visuais freqüentem os mais diversos lugares com seus cães adestrados”, observa.

O trabalho desenvolvido por Suzana estimula seus pacientes a encontrar o caminho natural do cotidiano. “Desenvolvemos aqui o que chamamos de Atividade da Vida Diária, a AVD. Eles aprendem a pegar colheres, a preparar sucos, a passar manteiga no pão, a tomar banho, a comer, escovar os dentes e até mesmo a arrumar mala para viagem”, comenta.

Além da AVD, o programa também inicia o deficiente visual no aprendizado alfabético pelo método Braille, que vai facilitar o processo de comunicação pelo sistema tátil e escrita.

Suzana explica que nos primeiros dias e semanas de vida não existem grandes diferenças entre um bebê que vê e um que não vê, que é cego. No início, não podendo enxergar, a criança não tem a percepção para coisas e objetos que estão ao seu redor.

“Com o desenvolvimento, a criança cega apresenta pouca motivação para se mover sem ajuda e não descobrirá as mesmas coisas que a criança vidente vê. Em conseqüência, ela poderá se tornar quieta, desajeitada e dependente”, diz.

As crianças cegas, em sua maioria, não apresentam a mesma expressão facial que as videntes. Em geral, balançam a cabeça, fazem caretas e movem os olhos sem parar ou os deixam sempre parados.

Além do atendimento no Cedalvi, a pedagoga quer ampliar o atendimento e divulgar sua experiência nas Escolas Municipais de Educação Infantil (Emeis), que já estão se preparando para atender portadores de necessidades especiais, dentre os quais o deficiente visual. “Estou percorrendo as escolas para orientar os professores no tratamento cotidiano dessas crianças”, conta.

• Serviço

Informações sobre o Cedalvi podem ser obtidas pelos telefones (14) 3234-3563 e 3234-9374.

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