O Brasil é um país complexo, multifacetado, com grupos sociais e de interesses econômicos variados. Governar este País significa aceitar o fato de que é necessário dividir responsabilidades administrativas. Governar é aceitar que a negociação é absolutamente fundamental para construir projetos e para agir. O Partido dos Trabalhadores (PT) chegou ao poder porque os eleitores queriam mudanças. Lula da Silva tornou-se presidente porque os eleitores queriam que o chefe de governo fosse uma pessoa comprometida em reduzir o enorme fosso social que separa os brasileiros em duas classes: a dos miseráveis e a dos milionários.
Lula da Silva, desde o primeiro momento, teve consciência de que as mudanças precisavam ser negociadas e de que era absolutamente fundamental construir um pacto político com representantes dos mais variados grupos de interesses. Mas o grande problema, surgido no primeiro dia de governo, era a incapacidade do PT em partilhar o poder. O PT não possui unidade, disciplina, capacidade operacional ou vontade de fazer um governo de coalizão.
O ministro da Casa Civil, José Dirceu, ao perceber que a base política do governo era minoritária, ao invés de negociar, de dialogar, de aceitar visões diferentes, decidiu, pragmaticamente, construir uma maioria - no Congresso - por meio de uma operação mercantil destituída de projeto e de lideranças. A desastrada manobra de José Dirceu trouxe parceiros chantagistas para sentarem-se ao lado de Lula da Silva. O resultado agora é evidente: os aliados desertam ou condenam o governo; Lula da Silva não é mais o líder que capturou o imaginário coletivo. É agora acusado de ser um estelionatário eleitoral que traiu o povo sem nunca ter se transformado em expressão política da elite que ele tenta adular. O governo petista está com as vísceras à mostra, apodrece em praça pública e se arrastará por mais um ano e meio à custa de remendos e titubeios.
Não haverá golpe, por três motivos: em primeiro lugar, os partidos e atores, em nossa arena política, estão no centro do espectro ideológico, o que impede uma polarização que nos leve a conflitos institucionais. Em segundo lugar: as oposições são democráticas e civilizadas, lideradas por quadros que se construíram na luta de resistência à ditadura militar. Por último: o colapso moral e a desarticulação política do PT estão antecipando o debate eleitoral de 2006.
Infelizmente, a incompetência de Lula da Silva e o despudor de José Dirceu criaram um problema que é nosso e não deles. O corporativismo cínico do Parlamento foi apresentado com doses maciças de corrupção, em rede nacional de televisão. O fosso da desconfiança entre representantes e representados irá se expressar numa avalanche de votos nulos, em breve. Neste aspecto, talvez não adiante devolver o poder para o PSDB, em 2006. Será pior ainda um segundo mandato para Lula da Silva, apoiado por um PT sem a aura de credibilidade e honestidade. Um governo, que precise se apoiar em algo parecido com o PTB de Roberto Jefferson, seria um pesadelo. Caro leitor, está na hora de refletir sobre a adoção do sistema parlamentarista. Antes que seja tarde demais.
O autor, Ney Vilela, é professor