Definitivamente, o sistema político brasileiro faliu. É preciso, urgentemente, repensar o modelo político. A reforma política é um início para isso.
Os últimos acontecimentos, agravados pelo caso de corrupção dos “Correios”, envolvendo apadrinhados do deputado do PTB, Roberto Jefferson, apenas detonaram o que já acontecia há muito tempo no governo, nesse e nos outros: corrupção, desmandos, roubalheira, maracutaias e trambiques de toda natureza. E é bom lembrar que isso acontece em todos os níveis dos governos: federal, estadual e municipal.
O próprio sistema político vigente é que propicia essas práticas. A coalizão política, critério esse adotado nos países mais evoluídos do mundo, possibilita a governabilidade de um país quando o governo eleito não consegue maioria e pressupõe uma possibilidade de participação de partidos políticos com o mesmo objetivo, ou seja, a solução para os problemas do País.
Pois bem, aqui no Brasil tudo é diferente: a deturpação do sistema político avançado e aprimorado se faz perceber pelo relacionamento entre o governo e o Congresso Nacional, através do loteamento do governo e o fisiologismo praticado pelo Executivo, que não tem nenhum critério de competência, técnica e de capacitação, para os indicados aos cargos constitucionalmente garantidos aos vencedores das eleições.
Os chamados partidos de oposição, que na verdade deveriam se opor aos projetos do governo, na medida em que esses não sejam do interesse do povo, fazem oposição ao governo, indiscriminada e sistematicamente, e só votam a favor se tiverem alguma vantagem. Ou seja, sendo bom ou ruim o projeto, não importa. O que importa mesmo é o "toma lá, dá cá", esse é o “acerto" feito em troca do apoio. O “mensalão" é apenas o mais atual método de corrupção.
Como é possível esperar lisura, honestidade e transparência de indicados para cargos que são distribuídos em empresas, do porte da Petrobrás, Correios, elétricas, etc, para pagamento de apoio político ao Executivo, se os indicados sabem que ficarão nos cargos por um breve período, no máximo quatro anos? Não nos resta outra expectativa que não a da roubalheira. E, como diria Justo Veríssimo (personagem de Chico Anísio): “Eu quero mesmo é me arrumar". Infelizmente, com raras exceções, este é o pensamento da maioria daqueles que ocupa os chamados cargos de confiança.
A reforma política é inevitável e urgente, na tentativa de mudar esta situação. Mas uma reforma destemida, corajosa e profunda. A fidelidade partidária, o financiamento público das campanhas políticas, o voto distrital, a proporcionalidade de representação por habitantes, a limitação de partidos e o limite para a reeleição de um candidato para o mesmo cargo precisam ser discutidos. Não é possível e nem tolerável, como acontece no atual sistema, que um candidato se reeleja, por exemplo, a vereador, deputado estadual, federal, senador, prefeito, governador e presidente, três, quatro, cinco ou mais vezes, se perpetuando na política e no poder, o que deu origem às oligarquias e aos monopólios políticos no Brasil.
Não é difícil de se entender os problemas políticos que temos, se considerarmos que a maioria dos políticos, principalmente do Congresso Nacional, são os mesmos há muito tempo. Eu poderia até enumerar aqui, mas, com certeza, o espaço não me permite. E considerando que as reformas tão necessárias irão contrariar interesses desses mesmos políticos, que lá estão - e com certeza e não sairão -, a resistência será grande pela mudança e o aperfeiçoamento democrático das eleições.
É claro que, neste momento, o que mais causou perplexidade à Nação foram todos esses fatos acontecerem com o PT de Lula, aqueles que se arvoravam em reserva moral da política brasileira. Sabemos que políticos e administradores públicos roubam em todos os lugares do mundo. A diferença é que, em outros lugares, a punição é exemplar e, quando flagrado roubando, o próprio ladrão dá cabo de sua vida pois sabe que não ficará impune. Ninguém seria ingênuo de esperar que isso não acontecesse com o PT, mas o que se esperava é que, tão logo se levantasse indícios de desmandos e qualquer deslize ético, o afastamento e a apuração dos fatos fossem rápidos, eficientes e a punição exemplar, seja em que nível fosse, de ministros de Estado ao copeiro do cafezinho. Mas, infelizmente, não é isso que temos visto. E é bom lembrar também que isso não é culpa do PT, mas do próprio sistema político vigente que possibilita esses desvios de conduta dos homens públicos brasileiros. Portanto, imaginar que qualquer mudança possa acontecer sem efetivamente alterar o sistema político atual será mais uma grande desilusão e decepção, ganhe quem ganhar as próximas eleições.
Carlos Eduardo S. Padilha - RG 7.996.385