O futuro da ponte Ayrton Senna, interditada desde dezembro de 2002, ainda é incerto, apesar da opinião contrária de engenheiros pela demolição da obra. Durante reunião técnica realizada ontem na sede do Sindicato do Comércio Varejista, no Jardim Higienópolis, os especialistas se manifestaram pelo aproveitamento da obra a partir da estrutura existente, mas não há consenso sobre a melhor ação de recuperação a ser empregada e nem segurança sobre o resultado dessa intervenção.
Descartada a demolição, hipótese comentada pelo prefeito Tuga Angerami (PDT) apenas como solução extrema, a discussão sobre o destino da obra levou à apresentação de três alternativas de reforma. O engenheiro José Henrique Albiero, responsável pelo projeto e execução da recuperação das fundações da ponte, defende as ações já em andamento: reforço das fundações e envelopamento do aterro.
Albiero não se arrisca a concluir o projeto de recuperação sem o envelopamento. “O aterro envelopado é realizado com técnica especial que não transfere reação para a superestrutura da ponte, o que elimina riscos adicionais. Pode ser que sem esse sistema a ponte apresente performance excelente pronta, mas eu não arrisco abrir mão do envelopamento”, opina.
Só a realização do envelopamento consumiria mais R$ 272 mil para finalizar a reforma. Mas o engenheiro, contratado pela prefeitura na gestão passada para eliminar os problemas estruturais (fissuras nas estacas de concreto), não arrisca afirmar que outros problemas não vão surgir. “Demolir eu acho inviável, até porque o custo da demolição e da remoção desse material, mais a contratação de novo projeto e sua execução custariam outra ponte, mais cara ainda. Agora, não posso dizer que a ponte é segura e nem que não dure, porque não tenho elementos para isso”, pondera Albiero.
A Albiero Projetos foi contratada apenas para o projeto de recuperação da fundação da ponte, onde se apresentaram as rachaduras nas estacas. Para o engenheiro Eric Fabris, esta solução atacou apenas uma parte da reforma. “Os passos para resolver as fissuras incluíam recuperar a fundação e avaliar a superestrutura como uma etapa das ações para colocar toda a obra em condições seguras de uso. Isso não foi feito”, critica.
Fabris também questionou se é mesmo necessário usar a técnica de envelopar o aterro. Albiero disse que essa era uma posição pessoal sua, que integrou o projeto de recuperação. Dessa discussão surgiu a eventual alternativa de realizar o aterro sem o envelopamento. Mas, ao final da reunião, os engenheiros deixaram apontado que a definição sobre a melhor escolha ainda depende de análises da superestrutura. Outro dado a ser verificado é o estudo hidrológico, para se saber como será o comportamento e o volume de águas que vai passar pelo rio.
O prefeito Tuga Angerami disse que vai considerar todos esses elementos para tomar uma posição. “Só vamos empregar dinheiro se a solução for segura e a vida útil da ponte garantida. Preciso discutir o estudo hidrológico e a análise da situação da superestrutura, menciona aqui como necessária, para depois decidir”, informa.
Prolongar a ponte
A discussão levou a outra opção para resolver o problema estrutural da obra quando o engenheiro Júlio Timerman esboçou outro projeto como sugestão para a reforma em definitivo. Ele defendeu a demolição das alas laterais de concreto hoje existentes para aumentar a vazão de água além do leito do rio e a realização de prolongamento da ponte (tramos) em 10 metros de cada lado para facilitar a passagem da água.
A proposta, entretanto, teria custo estimado de R$ 450 mil, valor acima dos R$ 272 mil lançados para o estudo atual, de envelopamento. “Esta solução é interessante do ponto de vista técnico. A questão é avaliar o custo e o projeto em detalhes, levando em conta os demais fatores”, levanta Eric Fabris.
A sugestão de Timermam, consultor contratado pela Tofer Engenharia para avaliar os danos causados na obra e suas conseqüências, significa, na prática, aumentar a atual ponte de 30 para 50 metros, com o prolongamento. A Tofer foi a empresa que construiu a ponte original, que apresentou rachaduras nas fundações.
“Acho viável também o envelopamento, mas só teria preocupação quanto à capacidade de vazão da água, com as alas laterais bloqueando. A sugestão de prolongar o tamanho que fiz resolve isso e elimina esse obstáculo”, aborda Timerman.
O que o consultor descarta, a exemplo de Albiero, é a de que a obra pode apresentar problemas na parte estrutural de cima. “Não vejo esse problema. Se tiver inspeção periódica depois, o projeto em execução e as análises que fiz na superestrutura não mostram qualquer problema”, conta.
O também engenheiro e diretor da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece), Fernando de Moraes Mihalik, também vê viabilidade nas três propostas discutidas. “O envelopamento é uma solução boa e mais comum, assim como a do aterro. A nova proposta de prolongar a extensão pretende evitar a execução dos aterros e o volume de água. É preciso verificar os custos disso”, menciona.
O engenheiro e professor da área de solos da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Heraldo Giacheti, acha o aumento da extensão atual da ponte uma solução, só que a mais cara. “A proposta inicial de reforço de solo é a mais barata e é mais interessante. A sugestão de prolongar é viável, mas precisa ser analisada. O reforço da fundação está garantido e o que se pode baratear ainda mais é com envelopamento, não com o uso da técnica de geosintético, mas de terra armada. Muda o produto e o preço, bem maior na primeira opção”, pondera.