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Festas juninas: rituais pagãos

Ney Vilela
| Tempo de leitura: 2 min

Milênios antes do cristianismo, nossos ancestrais já reconheciam que a Natureza possui ritmos e ciclos inevitáveis de nascimento e morte. Os primeiros pensadores, ao se preocuparem em tentar compreender o mundo, sentiam que existia uma sabedoria cósmica, anterior à própria existência humana e que era totalmente independente das decisões tomadas pela humanidade.

Os velhos homens sábios recomendavam que nós deveríamos procurar a integração com a ordem universal do cosmos. Precisaríamos aceitar a ordem cósmica (o logos), reverenciando-a carinhosamente.Há dois momentos anuais em que os ritmos universais são marcantes: os solstícios de verão e de inverno. Desde tempos imemoriais, os homens festejam essas datas com monumentos impressionantes (como o de Stonehenge) e com festas deliciosas e sensuais.No Hemisfério Norte, na época em que o cristianismo se consolidava, o solstício de inverno ocorria em 25 de dezembro e solstício de verão acontecia em 24 de junho.

O dia 25 de dezembro, contradizendo o pleno frio e o fato de que se vive a noite mais longa do ano, marca o renascimento: a partir daquele dia, vagarosa e inexoravelmente, o sol venceria as trevas. O dia 24 de junho, que era o dia mais longo do ano, expressa o auge do convívio, da fertilidade e da alegria. É o momento de se alimentar com guloseimas e de se purificar saltando sobre uma fogueira em que se atiram substâncias com efeitos sobrenaturais. As festas de solstício, consagradas pela sabedoria pagã e pela filosofia grega, marcam a comunhão com a ordem universal, externa ao domínio humano. Os gregos festejavam os solstícios com bebedeiras homéricas e deliciosas orgias dionisíacas.

São João, festejado no Brasil com fogueiras, quadrilhas, comida, bebida, danças, jogos e adivinhações, rejeitaria as festas dionisíacas que celebram o mistério de um mundo ligado à ordem universal. João era primo de Jesus e morreu degolado na Palestina. Em seu apostolado, decretou que o logos encarnou em um Homem-Deus, que se fez crucificar e ressuscitar para salvar a humanidade. Para João, a imortalidade não é algo anônimo e universal: ascendem ao paraíso aqueles que fazem a opção, individual e consciente, por certos comportamentos e que obedecem a determinadas prescrições. O logos deixou de ser usufruído de maneira universal e inexorável. Nem todos irão se salvar, permanecendo integrados ao cosmos, à vida eterna. João construiu barreiras, distanciando o cosmos daqueles que não seguem as prescrições do verbo que se fez carne.

O cristianismo, na Idade Média, apropriou-se das datas pagãs por dois motivos: facilitar a catequese dos pagãos e esvaziar suas comemorações. Assim, convencionou-se que Jesus nasceu em 25 de dezembro; que São João deve ser comemorado em 24 de junho; que a Páscoa ocorre no primeiro domingo de lua cheia após o equinócio de primavera. O vigor dos rituais de alimentação, o arrasta-pé sensual, o “quentão”, a vontade de adivinhar quem vai casar, o calor da fogueira, parecem indicar que, na batalha ideológica das festas de junho, a Igreja perdeu. (O autor, Ney Vilela, é professor)

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