Pedro e Maria viviam em uma pequena cidade do Interior do Estado de São Paulo. Os dois eram jovens e já namoravam há quase dois anos. Um certo dia, Pedro comunicou a sua namorada que havia recebido uma oportunidade de emprego na cidade de Cuiabá e que resolvera aceitar a proposta. Assim, ele teria uma condição financeira melhor para poder oferecer aos dois um futuro próspero e tranqüilo. Maria não ficou nada feliz com a notícia, mas se resignou diante da promessa do rapaz de voltar e de terem um futuro economicamente melhor.
Um mês depois, Pedro estava em seu novo emprego na Capital do Mato Grosso e toda semana se correspondia por carta com Maria. Semanalmente, o rapaz escrevia à namorada contando sobre sua vida e seu trabalho e semanalmente a jovem respondia suas cartas demonstrando a saudade que sentia de sua companhia.
O tempo foi passando e o rapaz começou a perceber que as cartas da moça tornavam-se cada vez mais escassas. Pedro continuava a escrever toda a semana, mas recebia de Maria somente uma carta a cada duas ou três semanas. Mais alguns meses se passaram e, apesar do rapaz continuar a escrever no mesmo ritmo, a jovem respondia somente no final de cada mês. Esta situação permaneceu até que se completaram três meses sem nenhuma carta de Maria. Pedro ficou, então, preocupado e resolveu tirar umas férias do trabalho para poder visitar sua amada.
Chegando à sua cidade, o rapaz foi imediatamente ao endereço de sua namorada e apertou a campainha. Maria apareceu à porta e, sorrindo aliviada, disse a Pedro: “Finalmente você apareceu. É impossível brigar por correspondência!”
Um verdadeiro relacionamento amoroso nunca é a fusão de duas metades, mas sempre a aproximação de dois inteiros. Aquela antiga expressão “encontrei a tampa da minha panela” não representa de forma alguma o que é um relacionamento de amor entre duas pessoas. Os amantes precisam sempre ter a consciência de que são pessoas diferentes. Não existem pessoas iguais.
Um verdadeiro relacionamento amoroso nunca deve ser um relacionamento de submissão, de anulação da personalidade. Pelo contrário, o relacionamento amoroso deve ser um enriquecimento de nosso horizonte existencial. Para isso é necessário que os amantes possam ter a possibilidade de ser eles mesmos, de viverem na autenticidade.
Quando duas pessoas se amam e desejam caminhar juntas devem simultaneamente permitir que o outro seja ele mesmo. Amar significa deixar que o outro seja livre, que a outra pessoa possa verdadeiramente “respirar”. O desafio assumido pelos amantes é aprender a viver e amadurecer com a diferença do outro. Na verdade, amar não é ir em busca de sua própria vida, mas descobrir-se realmente vivo na alegria de ver o outro viver.
Este encontro verdadeiro de aprendizagem mútua pressupõe que os amantes sejam fiéis. É necessário compreender, porém, que fidelidade não significa simplesmente “não trair o outro”. A traição está na superficialidade do ser fiel. E quando ela acontece normalmente é porque os amantes já deixaram de ser fiéis há muito tempo. Fidelidade significa ser transparente diante do outro, deixar que o outro verdadeiramente o conheça. Se isso acontece no relacionamento, evita-se um dos piores venenos de uma relação humana: a desconfiança. Quando os amantes se deixam conhecer, adquirem a real sensação de pisar em solo firme.
Em contrapartida, se existe fidelidade, inevitavelmente existirá o conflito. Justamente por ser o relacionamento amoroso uma aproximação de dois inteiros, de duas pessoas diferentes, ele é em sua essência um relacionamento conflituoso. O conflito pertence à relação humana e principalmente à relação a dois. O casal que diz nunca ter vivenciado uma briga, uma discussão ou um conflito não está falando a verdade. Ou pior: alguém está, na relação, representando um papel, vestindo uma máscara ou sendo submisso.
Se o casal se propõe a viver na autenticidade e na franqueza, o conflito é inevitável pois, as diferenças fatalmente aparecem. O conflito, apesar de doloroso, é saudável. Em primeiro lugar, porque o momento conflituoso revela a autenticidade dos amantes. Em segundo lugar, porque a crise de relacionamento é uma possibilidade de amadurecimento. O conflito, apesar de desagradável, é o momento de reconhecer o erro, de compreender o ponto de vista do outro, de aprender algo novo. “No amor ocorre o paradoxo de dois seres se tornarem um, mas continuarem a ser dois” (Erich Fromm).