Ser

Poeta da cor

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 7 min

Um dos participantes da Casa Cor 2005, Rômulo Cavalcante é artista multimídia. Transita pelo design de ambientes, pintura, restauração, criação de murais, ornamentação e projetos de decoração. Há espaço ainda para a cenografia, poesia e teatro.

Nascido em Major Izidoro, Interior de Alagoas, mudou-se para São Paulo na juventude. Único menino de uma família de seis irmãs, Rômulo começou a se interessar pelas artes ainda na adolescência. Aos 16 anos já era dono de uma boutique de roupas, seu primeiro projeto de interiores.

Incentivado pelos pais, Rômulo começou sua trajetória na área de moda. Aos 18 anos, era dono de mais uma boutique em Arapiraca e começou a organizar exposições de pintura, concursos de poesias, apresentações musicais, desfiles de moda, festivais literários e peça de teatro.

Na Capital, firmou parceria com Júnior Borges, com quem aprendeu mais sobre pintura em mural e se aprofundou em temas religiosos. A Cruz Bizantina para a Catedral Metropolitana Ortodoxa de São Paulo é um dos frutos dessa experiência. Além disso, passou a se interessar por murais, fato que o fez se especializar em cursos em levou a Roma e Florença para cursos especializados.

Anos mais tarde e conhecido no cenário da decoração e artes plásticas, Rômulo começou a decorar os ambientes que participava com o arquiteto paulistano Ado Mendes. Juntamente com ele, montou uma loja de decoração, que os levou à participar das edições da Casa Cor Brasília e Goiânia. Desta vez, pelo terceiro ano, Rômulo está participando da Casa Cor, em São Paulo, com uma instalação montada no espaço da Casa Praia. Confira a entrevista com o artista seguir.

Jornal da Cidade - Fale sobre a mostra “mini Casa Cor” em Bauru, por que ela foi concebida e quais são os objetivos do evento.

Rômulo Cavalcante - Imagine uma casa onde você entra e se sente em casa. A atmosfera é familiar. Um primeiro olhar revela a harmonia das cores. Móveis, arte e objetos combinam entre si. A luz não ofusca seus olhos, ao contrário, ha muitos abajures ligados e o tom é meio amarelado, aquele que deixa sua pele mais bonita. A música funciona quase como um pano de fundo, alguma coisa entre Bebel Gilberto ou Sakamoto, ou um som qualquer que faça seu corpinho balançar, de leve. Esquerda ou direita, para qualquer direção que você aponta, lá esta a digital dos moradores: nos livros, nos garimpos trazidos de viagens, nas almofadas fofas espalhadas pelos sofás, nas combinações inusitadas de fotos com desenhos e pinturas, no jeito como as flores estão dispostas, enfim. Esta casa pode ser a sua casa. Como você vê, falar de decoração é falar de amor. Amor pela casa.

JC - Como você avalia o cenário atual da Casa Cor em comparação aos anos anteriores?

Cavalcante - A Casa Cor é um mergulho na paisagem de uma nova forma de morar bem, é claro. Essa é a terceira vez que participo da Casa Cor. Na primeira vez, em Brasília, desenvolvi junto com o arquiteto Ado Mendes o “lavabo do ministro”, ambiente em estilo gótico. Na segunda vez, em Goiânia, criamos o ambiente do colecionador de arte sacra. Agora, em São Paulo, junto com Ricardo Pessutto, paisagista, interagi com um painel de pastilha de cerâmica inspirado na série “flores da primavera”, desenvolvido por mim anteriormente apresentado na projeto Vivaldi, na USC, e algumas esculturas em aço enferrujado. Sempre inovando no espaço físico, mansões, hospitais, casarões, fábricas, hotéis etc. Este ano a proposta da Casa Cor, segundo Brunetti Fracarolli, presidente da Associação Brasileira de Decoradores (ABD), em comum acordo com os participantes veteranos, abre o espaço para novos talentos, atitudes como essa que permitiu-nos conhecer novas concepções de espaço com uma leitura contemporânea e atemporal, vale a pena visitar.

JC - Qual sua avaliação geral sobre a Casa Cor?

Cavalcante - Acompanho a Casa Cor desde que cheguei em São Paulo, no final dos anos 80. A mostra abre espaço e apresenta arquitetura, paisagismo e decoração, ampliando e divulgando o trabalho de profissionais que até então eram conhecidos por poucos. Também pode-se dizer que através do “fenômeno Casa Cor”, a quantidade de pessoas dispostas a usar os serviços de um profissional da decoração aumentou consideravelmente, bem como a propensão, por parte do público em geral, a realizar mudanças em suas casas que incorporassem os “novos designers”, materiais e tecnologias que, ano a ano são lançados na Casa Cor. Para o profissional dos segmentos da área, visitar a Casa Cor significa pesquisar materiais e soluções, conhecer tendências, rever conceitos, ousadias, enfim, antenar-se.

JC - Como você disse, a arquitetura e decoração são temas que vêm ganhando muito espaço na mídia. Há público para essa demanda, levando-se em conta que “montar” ou arquitetar uma casa ou espaço é caro para os padrões econômicos da maiorias das pessoas?

Cavalcante - Hoje as pessoas percebem que com as novas tendências, tecnologias e diversidade de materiais, fica difícil optar e escolher, um acompanhamento profissional, a execução de um projeto residencial ou comercial, isso não significa extrapolar o orçamento, pelo contrário, uma obra planejada e pesquisada tende a ser mais rápida, portanto mais econômica dentro dos parâmetros dos clientes.

JC - Há alternativas baratas para se criar espaços com beleza, conforto e qualidade? De que forma?

Cavalcante - Sempre há, se não, inventa, cria. Com algumas mudanças - interferência - no modo de viver, criando espaços onde a pessoa possa estar bem, isso independente do orçamento. Exemplos: estudar bem a localização de móveis e objetos, respeitando a circulação, valorizando bem a iluminação natural, mantendo seu habitat sempre limpo e ventilado e descobrir o que lhe da conforto, um cantinho de leitura, uma cama confortável, um sofá gostoso, uma boa música, uma janela com uma boa vista, uma cozinha prática, enfim, pequenas coisas que tanto faz se vivendo em uma mansão ou em uma casa de sapê.

JC - O estudante que sai da faculdade é suficientemente preparado para o mercado de trabalho?

Cavalcante - Os ensinamentos aprendidos em uma faculdade lhe dão embasamento técnico, a prática dará ao profissional condições de trabalho de enfrentar o mercado e aplicar os conhecimentos adquiridos.

JC - O que você anda produzindo atualmente?

Cavalcante - Difundindo conceito, suando muito, pintando pouco, decorando, sempre, me envolvendo com um com e com outro (arte e cultura), descobrindo caminhos que até então ocultara. Aguardando coisas, como todo brasileiro, como todo mundo.

JC - Quais são seus sonhos e projetos futuros?

Cavalcante - Continuar desenvolvendo trabalhos em que eu possa estar contribuindo para uma melhor qualidade de vida para as pessoas e adquirir mais conhecimento. Aguardo ansioso o início das obras da Igreja Santa Teresinha, primeiro projeto de restauração e preservação aprovado pela Lei Roanet no governo Lula. Atenção, senhores empresários, atentem para isso, pois só depende do apoio de vocês para que esse trabalho seja realizado. Atualmente estou envolvido junto à Secretaria Municipal de Cultura e a USC, no 1.º Festival de Inverno de Bauru, evento que tem como um dos principais objetivos resgatar o prédio do Automóvel Clube, tornando-o difusor cultural de Bauru e da música erudita na região.

JC - Você acredita que o artista deixa sua “marca”, gostos pessoais e estilos em suas obras?

Cavalcante - Essa “marca” não apaga nunca. Cada trabalho é uma partícula que você vai espalhando, sabendo que ela vai ser bem cuidada por quem você confiou.

JC - Quais são suas paixões?

Cavalcante - Adoro desafios, principalmente quando envolve arte, esse mundo estranho e encantador que precisa ser descoberto e conquistado a cada instante.

JC - O que gosta de fazer nos momentos de lazer ou folga?

Cavalcante - Correr para um cantinho sozinho, no máximo com um livro, e descobrir novos mundos.

JC - Onde busca inspiração para criar?

Cavalcante - No instante, no momento já, no piscar. Inspiração é celebração. É pulsar.

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