O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem que romper com a política econômica que privilegia o mercado e mantém o País refém dos indicadores externos se quiser ter sucesso na eleição de 2006, independentemente da crise que traz denúncias de corrupção próximas ao governo. Esta é a avaliação do ex-deputado federal Plínio de Arruda Sampaio (PT), que esteve anteontem em Bauru para uma palestra sobre cidadania na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Sampaio acha que a crise em torno do episódio de pagamento de ‘mensalão’ a deputados para o governo manter a base aliada, não assusta mais. Leia a seguir a entrevista concedida ao JC:
Jornal da Cidade - Qual é a avaliação do senhor sobre a crise no governo federal? Plínio de Arruda Sampaio - É uma crise profundamente séria e, como toda crise, pode ter um final horrível, mas pode ser uma oportunidade para uma mudança importante. O que é fundamental é apurar as acusações, com CPI, inquérito, sindicância, todos os instrumentos de perquirição da verdade, doa a quem doer.
JC - O governo errou ao defender apuração apenas com instrumentos vinculados ao Executivo, sendo contra a CPI? Sampaio - O governo vacilou um pouco no começo, mas corrigiu em tempo. Também tomou as providências cabíveis ao Executivo rapidamente e isso não se pode negar. O governo precisava mesmo concordar com a CPI e concordou, porque ela é mesmo necessária.
JC - A relação política promíscua entre o Legislativo e o Executivo é histórica. Até onde esta crise pode prejudicar o processo sucessório do ano que vem? Sampaio - Penso que se o governo tiver agora uma atitude firme e se, sobretudo, mudar sua política econômica, tem chance em 2006. Se não aprender a lição e insistir em ter a maioria que tem no Congresso e que vota contra ele, realmente não vai conseguir nada e vai se desmoralizar. O que vejo é a direita em uma ofensiva aproveitando-se de uma circunstância. Mas uma circunstância que vai ser apurada. De modo que a hora que isso for apurado, o assunto morre.
JC - Não é ingenuidade demais pensar que o que declarou o deputado Roberto Jefferson não seja uma prática comum há muitos anos no Congresso? Sampaio - Eu não estou aceitando que exista nada, porque eu não quero me antecipar às conclusões da investigação, eu não investiguei nada. Estou falando, em tese, que a decepção do povo não é tanto com relação a isso, mas com o fato de que o Lula não mudou a política econômica do governo anterior. O que está errado é a política econômica e é por causa dela que o presidente precisa ter essa bruta maioria no Congresso. O erro está em ampliar excessivamente a base do governo. Se se provar que não houve nada nessas denúncias, ainda assim eu digo que não deve ter aliança desse porte e com gente como o Jefferson.
JC - Mas na política econômica o governo usa indicadores como a balança comercial, a relação PIB-dólar, o superávit primário e outros para dizer que tudo vai bem? Sampaio - É que esses indicadores e esses critérios são os que eu não aceito porque não são os critérios do PT e nunca foram os critérios do Lula. A tristeza que eu tenho é que estão usando os critérios de avaliação neoliberais. Pra mim o que importa é se tem emprego pra todo mundo, se o salário está aumentando, se o salário dá para comprar tudo o que o sujeito precisa para ter uma vida modesta, mais digna.
JC - Então, para o senhor, o governo tem que romper com essa política econômica, senão está fadado ao fracasso eleitoral em 2006? Sampaio - Eu acho isso e acredito que o povo ainda gosta muito do Lula. Se o presidente tiver um gesto, o povo vai o apoiar inteiramente. O que o presidente precisa é ter esse gesto, romper com essa política econômica e partir para frente.
JC - O Lula é refém dessa situação? Sampaio - Essa dívida externa enorme faz com que seus agentes tenham uma força imensa. E o dinheiro tem que ser gerado com uma folga todo dia para que o governo possa fechar as contas. Então, o mercado começa a exigir coisas. Acho que o Lula tem que romper com isso. Ou o mercado quer arrebentar um país de 200 milhões de habitantes? Então essa burguesia não pode enfrentar o Lula e ele está cometendo um erro de achar que pode levar isso com o tempo. E, por isso, de certa maneira, o Lula é mais benevolente com o sistema financeiro que o governo anterior. Só que a motivação é diferente. O anterior acreditava nisso e o Lula está temeroso em não fazer isso e criar uma situação que possa afetar o povo.