Articulistas

República dos inocentes


| Tempo de leitura: 3 min

Melhor do que a “novela das oito”. Assistir aos telejornais é o mesmo que acompanhar uma comédia bufa onde os atores desfilam pelo palco eletrônico para jurar inocência. No lodaçal das evidências, todos se declaram santos. Já na Roma antiga, denominavam-se todos os pretendentes a cargos públicos de “candidus” que, em latim, significa “imaculado”. Daí a palavra candidato. Era tradição que os políticos se vestissem de branco imaculado para dar a impressão de “ficha limpa”. Quando criança, na matinée do cinema, era fácil distinguir heróis de vilões. Nos westerns, bandidos usavam coletes escuros e bigodes. Mocinhos tinham a cara limpa, barba escanhoada, sorriso brilhante e o revólver não descarregava.

No tiroteio político de Brasília, a gente fica em dúvida. Lula aparece na TV autodenominando-se “o rei da ética” e um modelo de virtudes. Zé Dirceu nunca ouviu falar em “mensalão” ou que outro nome tenha, a não ser por uma breve menção no Jornal do Brasil tempos atrás. Zé Dirceu tem o olhar decidido e agressivo do defensor de órfãos e frágeis donzelas. O outro Zé, esse Genoino, ostenta o semblante franco do amigo do Zorro. Do outro lado do balcão, o englostorado Jefferson no papel do vilão, irônico, olhar de águia à espreita da presa, cara do sem escrúpulos pronto a fazer de uma criança seu escudo se errar o tiro. Falta a mocinha loira, de cabelos encaracolados. Dilma Roussef poderia até desempenhar o papel se não fosse desqualificada pelo ministro Gilberto Gil que exortou a sua porção-homem. Dirceu alijou-a de vez do papel quando a chamou de “companheira de armas”, incompatível com a figura dócil e frágil que se exige para o papel de musa do filme.

Certa vez, Júlio César passou meses fora de casa, lutando em terras além das fronteiras e, ao voltar para casa, soube que sua esposa tinha dado uma festinha em casa, convidando amigos para jantar. Nada demais, mas ele pediu que não fizesse isso de novo. A mulher ficou indignada com a desconfiança do marido: “Ave, César! Estareis, por acaso, imaginando que não sou uma mulher honesta?” O general, calejado de muitas batalhas e profundo conhecedor do imaginário popular, explicou com paciência: “Minha filha, a mulher de César não precisa ser apenas honesta: ela precisa também parecer honesta.” César sabia que a população nunca tem acesso à verdade, e sim às versões. Não presencia os fatos. Conhece apenas os relatos sobre esses fatos. Não basta fazer o que é certo. É preciso produzir versões que convençam as pessoas de que não se fez o errado. O governo Lula não faz questão de adotar a postura da mulher de César depois da carraspana do marido. Alianças espúrias são feitas a qualquer preço e depois não quer ser comparado com quem anda.

O que estamos assistindo é um filme sem o mocinho facilmente identificável pela cara limpa e conduta transparente. Sinta, o leitor, a falta de cuidados: Zé Dirceu usou o Valdomiro, nosso infeliz conterrâneo, e descartou-o quando foi detonado. Em compensação, jamais moveu um dedo para providenciar a punição do delito e purificação da clientela do quarto andar do Palácio do Planalto onde os conchavos são feitos. O PT comprou o PTB em troca de cargos rendosos pelas licitações milionárias e possibilidades de gordas propinas. O sistema assim obriga e tudo é feito em nome da governabilidade e pelo bem do País. O problema é que o povo, aquele que paga o ingresso para assistir ao filme, não admite enredos onde o mocinho morra no fim e o mal triunfe. Ou então que sejam declarados todos inocentes, como no filme “O milagre”, de Vittorio de Sica, onde os personagens se redimem e sobem ao céu. Como é difícil acreditar em milagres nesta sociedade corrupta! O melhor é que uma grande cadeia seja providenciada pelo produtor do filme, suficientemente ampla para retirar do convívio social todos aqueles que fazem por merecer o castigo aqui mesmo, na terra. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

Comentários

Comentários