Ciências

Pontes integrará tripulação científica

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

“Uma vez que você recebe uma missão, deve assumi-la como sua responsabilidade e comprometer-se completamente.” Foi assim que o tenente-coronel da Força Aérea Brasileira (FAB), o bauruense Marcos Pontes, primeiro astronauta brasileiro, recebeu a notícia de que sua viagem rumo à Estação Espacial Internacional (EEI) está prestes a acontecer.

Em treinamento na Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) há sete anos, Pontes não estranhou que a sua oportunidade de ir à EEI viesse da Rússia, em vez dos Estados Unidos. “A Rússia, assim como os Estados Unidos, é uma parceira do programa”, afirma.

Ele respondeu a essa entrevista, anteontem, diretamente da Nasa, onde continua seu aperfeiçoamento para integrar a missão internacional. Leia os principais trechos a seguir:

Jornal da Cidade - Por que a viagem será feita em uma espaçonave russa e não americana? Marcos Pontes - A Agência Espacial Brasileira (AEB), autarquia do Ministério da Ciência & Tecnologia (MC&T), tem mantido negociações com a Rússia de forma que eu possa realizar o histórico primeiro vôo espacial brasileiro no ano que vem. A Rússia, assim como os Estados Unidos, é um dos parceiros do programa da Estação Espacial Internacional (EEI), projeto do qual o Brasil faz parte juntamente com mais 15 países de grande projeção no cenário mundial de alta tecnologia. Os dois caminhos para o espaço e a realização de experimentos na EEI são possíveis para o Brasil. A possibilidade de vôo pela Rússia está sendo analisada por razões logísticas e operacionais pela administração da AEB.

JC - Qual a missão dessa viagem? Pontes - Existem dois tipos de tripulações visitantes na EEI: expedições e científicas. As expedições são atualmente compostas de dois elementos e permanecem na EEI por seis meses contínuos. Elas são responsáveis pela manutenção da EEI e realização de experimentos de longa duração. As tripulações científicas são compostas de três elementos (Soyuz) e enviadas à EEI, atualmente, a cada seis meses. Essas permanecem na Estação por períodos de dez dias, sendo responsáveis por experimentos de curta duração, transporte de experimentos e alguns equipamentos, assim como manutenção especializada do complexo.

JC – O que exatamente o senhor vai fazer no vôo? Pontes - Além de auxiliar na manutenção e montagem da EEI, devo fazer parte de uma tripulação científica, realizando experimentos de instituições nacionais. Os detalhes da missão e experimentos estão sendo tratados pela AEB. Após a conclusão das conversações e definição dos experimentos, eu serei informado dos detalhes e iniciarei o período de familiarização com os procedimentos necessários para a execução das tarefas e experimentos atribuídos. Nesse período, o treinamento deverá ocorrer em Moscou, no Brasil e nos Estados Unidos.

JC - Quando deverá ocorrer a viagem? Será em 2006 mesmo? Pontes - Por enquanto tenho apenas informação de período: entre abril de 2006 e setembro de 2007. As negociações em curso do MC&T, através da AEB, com a Roskosmos deverão definir a data com precisão.

JC - Quando o senhor iniciará os treinamentos na Rússia? Pontes - O treinamento inicia assim que concluídas as negociações. Ele é semelhante ao treinamento para a operação do ônibus espacial. Existem aulas técnicas de sistemas, simuladores, montagem e desmontagem de componentes, sistemas e técnicas complementares, procedimentos operacionais, procedimentos de comunicação, documentação técnica, etc...Por já possuir o treinamento necessário na operação da EEI, o treinamento quanto à estação deverá consistir apenas de complementação em sistemas russos mais específicos, conectividade de experimentos e os procedimentos científicos dos experimentos (treinamento conduzido pelas instituições científicas e empresas brasileiras que terão seus experimentos realizados no espaço).

JC - Depois de anos de dedicação ao programa espacial, a notícia causou grande impacto no senhor? Como foi sua reação? Pontes - Quem me conhece bem, sabe que eu sou bastante dedicado a fazer o melhor possível nas minhas atividades. Isso inclui grande dose de preparação emocional para conduzir com sucesso os eventos da vida pessoal e profissional e manter-se sempre estável. De forma geral, penso que eu sou apenas “um vetor” a serviço do País para realizar essa missão em nome do Brasil. Algumas pessoas me perguntam como consigo suportar a expectativa e manter a luta contínua pelo objetivo nacional de levar a bandeira do Brasil ao espaço ao longo de tanto tempo (já são sete anos de luta). Conforme aprendi durante mais de 20 anos como piloto de combate da Força Aérea Brasileira, uma vez que você recebe uma missão, você deve assumi-la como sua responsabilidade e comprometer-se completamente (se necessário até com a sua própria vida) para cumpri-la com sucesso até o final. Eu sigo exatamente essa idéia. Assim, enquanto existe uma possibilidade, por menor que seja, temos que levantar a bandeira e prosseguir na luta. Isso me lembra o Ayrton Senna. Enquanto existia uma chance, uma mínima esperança de vencer, lá estava ele, na luta. E vencia. Levantava a nossa bandeira. Acho que é essa garra e determinação que eu mais admirava nele. Coisas que às vezes são difíceis de ver, e que tanto nos dava orgulho do Brasil. Lembre-se que uma batalha só termina quando um dos lados para de lutar. Por aí, você tem idéia de como recebi a notícia. Espero que o governo federal, que por seu preceito básico quando partido, certamente conhece e respeita os desejos do nosso povo, consiga finalmente realizar esse evento de orgulho nacional, histórico e único, através da atitude lógica e continuidade de condução. Eu, como astronauta estou pronto. Como brasileiro, torço muito para o sucesso da administração pensando como milhões de brasileiros que apóiam esse objetivo nacional

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