Todos conhecem aquela pessoa simpática, que só tem palavras de elogio, que ameniza os fatos desagradáveis, que encanta e deixa a todos satisfeitos, mesmo que no íntimo saibam que não é verdade. Não estamos falando dos falsos e hipócritas, com intuitos bajuladores, que escondem segundas intenções, mas daquela pessoa que não quer atritos, que no íntimo não concorda com certas situações, mas prefere ficar calada para não magoar.
Quando participa de uma reunião onde se discutem problemas, quer seja em uma organização ou em família e não se chega a uma solução satisfatória, mesmo assim, quando termina a reunião essa pessoa agradece a colaboração e diz que a reunião foi muito proveitosa. Se alguém pergunta por que não disse o que pensava, sabendo que ela possuía uma opinião diferente, ela diz que não seria oportuno porque algumas pessoas poderiam não gostar. Em compensação, todos também conhecem aquela pessoa que não tem papas na língua, que se vangloria de dizer o que pensa, de ser franca, que sempre tem uma observação a fazer ou que faz perguntas que incomodam e que não se importa com a imagem que deixa nos outros. Quando participa de uma reunião, corta a palavra de quem está falando para discordar ou para acrescentar um ponto de vista pessoal. Se no primeiro caso os outros ficam satisfeitos, mesmo sabendo que não é verdade, no segundo caso, mesmo sabendo que é verdade os outros se irritam. Por essa razão, fugir da franqueza é mais cômodo do que praticá-la.
A falta de franqueza não ocorre apenas porque alguém quer ser agradável, mas também por intimidação provocada por superiores, por timidez ou por medo de cometer erros e passar vergonha. Jack Welch, o famoso ex-presidente da GE, é um ardoroso defensor da franqueza e crítico da falta de franqueza. Para ele, a falta de franqueza é um grande mal, que prejudica as organizações, mas que existe porque “somos educados desde a infância para atenuar as más notícias e adoçar os temas amargosâ€, fato que contribui para que a franqueza seja uma raridade. Welch considera a falta de franqueza um sério problema porque ela “bloqueia as idéias inteligentes, retarda as ações rápidas e impede que as pessoas capazes contribuam com todo o seu potencial.†Em seu último livro, “Paixão por Vencerâ€, ele diz: “Desde o dia em que entrei na GE até quando fui nomeado CEO (Executivo Chefe), vinte anos depois, meus chefes sempre me advertiam quanto ao excesso de franqueza. Eu era considerado cáustico e sempre me avisavam que meu excesso de franqueza acabaria com a minha carreira. Agora, minha história na GE chegou ao fim e garanto-lhes que a franqueza muito contribuiu para o meu sucesso. Muito mais gente entrou no jogo juntando suas vozes e sua energia. Éramos absolutamente objetivos nos nossos relacionamentos e assim todos nos tornamos melhores.â€ É uma opinião respeitável, mas do mesmo modo como a falta de franqueza pode trazer prejuízos, o excesso de franqueza ou a sua manifestação inoportuna ou de forma agressiva, como ocorre muitas vezes, também pode trazer prejuízos tanto a quem a pratica como a quem é dirigida. O bom senso manda, sempre, evitar os extremos. (O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru)