Nosso primitivismo existencial é de acordo com nossa ordem cronológica. Ao sair do ventre materno e ser jogado ao mundo, primeiro batemos a cabeça na parede para depois usá-la com inteligência. Nesta evolução lenta, passamos por vários estágios. Como processo de reação à nossa peculariedade na adolescência, procuramos nos impor tentando realçar nossa singularidade. Nos colocamos no mundo como imperador. Deslocamo-nos firmemente procurando nos evanecer, agindo com prepotência e sem experiência. Fabricamos soluções isoladas e paliativas nascidas de nosso íntimo e distantes dos fatos reais.
Para nós desta idade (40 anos), a vida é um brinquedo estragado. E só nós podemos consertar. Em compensação, ampliamos os horizontes e a inquietação provocada é proporcional às fantasias construídas. Nossa oficina íntima é uma construtora de frágeis brinquedos, que são detonados pelo universo real, reacendendo a insatisfação de projetarmos a existência colorida e ela retribuir em preto e branco.
Contaminamos o mundo de ideais e somos portadores de frustrações imperiosas. Até aos 40 anos, a vida é uma sucessão de erros, formando um encadeamento consistente, incapaz de ser rompido. A primariedade de erros nos torna doutores contumazes em aliviar suas conseqüências. Aprendemos porque absorvemos com intensidade suas repercussões desastrosas.
Erramos futilmente em todos os setores da existência, dando a impressão de que permanecemos estáticos. Esta estagnação nos prejudica, pois, na vida, quanto mais caminhamos, mais aceleramos, mais perto do objetivo ficamos. Ela é generosa, nos dando sempre novas oportunidades. Porém sabemos não existir acertos eternos e também erros sem novas soluções. Nossa vulnerabilidade nos faz cometer em demasia erros profundos. Como também nossas virtudes nos faz corrigi-los em tempo de serem transformados em êxito.
A riqueza vivencial nos traz um repertório imenso, tanto de erros quanto de acertos. Quanto mais agimos, mais impregnados de erros e acertos ficamos. E, quanto mais erramos, mais avançamos e diminuímos nossos repertórios negativos.
O erro convicto é uma espécie de teimosia narcisista. Como o erro casual, ele é um desvio do acerto. Nesta idade em que encontramos hoje, só vivemos erros inevitáveis. Diminuímos nossa produção e a vida parece ter sentido com a vinda do sucesso. Desequilibramos favoralvemente a balança a favor dos acertos. Pois, com 40 anos, estamos realmente amadurecidos. Nem verdes demais, nem apodrecidos. Prontos para o consumo vivencial. E, neste banquete de acertos, por certo, não haverá sempre alguns erros incapazes de fomentar nossa fome, pois saberemos tirá-los do prato, ficando a comida com tempero constante de felicidade em equilíbrio.
O autor, Juarez Alvarenga, é advogado