O mês de junho terminou, mas as festas típicas não. A paixão pelas comemorações juninas fez com que a tradição da fogueira e da quadrilha se estendesse até julho. Um dos motivos é a falta de profissionais para trabalhar nesta época. A demanda é tão grande que sanfoneiros, pipoqueiros e cozinheiros “caipiras” estão com a agenda cheia e não dão conta de tanto serviço.
Nesta época, o faturamento dessas pessoas chega a dobrar ou até triplicar, tornando-os profissionais dos mais requisitados. Afinal, não é qualquer pessoa que consegue fazer um bolo de fubá ou uma canjica com “gostinho de fazenda”, como Márcia Bessa Pereira Leite.
Especialista em comidas caipiras, ela não sai do fogão a lenha nos meses de junho e julho. “Fazemos jantares e almoços típicos da roça. Fazemos cuscuz, quentão, doces em compotas, canjica, bolo de milho, mandioca e fubá, mas é o tal do maneco de jaleco que mais atrai a atenção daqueles que apreciam uma boa comida caipira”, diz Márcia.
As receitas ela guarda a sete chaves. Revela apenas que em cada um dos pratos tem uma porção pessoal. “Aprendi a cozinhar na fazenda de meu avô. Depois fui mudando as receitas e adaptando ao gosto das pessoas. O maneco de jaleco é um prato feito com carne de porco, servido com angu de fubá e couve picadinha.”
A cozinheira confirma que a época é de dobrar o faturamento. “Para nós, é como o Natal para os comerciantes de brinquedos.”
Outra empresária do segmento, Maria Gomes Siqueira, mais conhecida por “dona Lurdes”, concorda com a cozinheira Márcia no que tange ao faturamento. “A procura aumenta em 100%. Normalmente, trabalho só com meu marido servindo pipoca nas festas. Nos meses de junho e julho, minha filha vem ajudar.”
A pipoqueira passa, então, a faturar de maneira diferente. “Durante o ano, sirvo pipoca e algodão doce em festas, especialmente as de aniversário, e cobro R$ 20,00 por hora. Nesses dois meses faço também o milho cozido e passo a cobrar por produto. Nas festas juninas de escolas chego a vender 400 pacotinhos de pipoca; 20% (do faturamento) fica para o estabelecimento por ceder o local.”
Dona Lurdes comemora a época e confessa que, infelizmente, tem que recusar serviço. “Nesses meses, recuso serviço. Tenho dois carrinhos de pipoca e um de algodão doce.”
Alegrando a festa
Festa caipira sem o som da sanfona ou do acordeon não é festa genuinamente junina ou julina. Por isso, os sanfoneiros são muito requisitados nesta época do ano, afinal, são eles que dão vida à quadrilha e ao “arrasta-pé” que segue noite adentro.
“Seu Neneco”, que foi batizado de José Fernandes, é sanfoneiro há 30 anos. Sua agenda está lotada até o final de julho. “Só tenho dias livres em agosto. Eu fico triste de não poder atender a todos, porque gosto de tocar nas festas e ver as pessoas alegres.”
O “Natal” dos músicos sertanejos, segundo ele, era só no mês de junho, próximo aos dias em que se comemora Santo Antônio, São Pedro e São João. “As pessoas gostam tanto desse tipo de festa que acabaram estendendo o período por mais um mês. Para nós foi bom, porque assim temos trabalho”, comemora.
Profissionalmente, Neneco é construtor, mas o reforço no orçamento vem do prazer de tocar sanfona. “Nesses dois meses o orçamento da família é reforçado com aquilo que considero um hobby. Normalmente toco em três ou quatro festas por mês. Nesses dois meses, toco em nove ou dez”, revela o sanfoneiro.
Nesta época, ele confessa que é possível cobrar um cachê maior. “Prefiro não (cobrar), porque já tenho alguns clientes que me chamam todo ano para tocar. Gosto de manter a carteira de clientes e fazer amigos.”
O sanfoneiro Décio Pedro Voltolin é outro que já está com a agenda lotada. “Tenho festa marcada para agosto. Para mim, a semana em que se comemora os santos juninos é mais apertada. Chego a tocar todos os dias da semana. A demanda é ainda maior nos dias que antecedem e no dia em que se comemora Santo Antônio, São João e São Pedro”, conta.
Há anos com o acordeon nos braços, Voltolin diz que durante os demais meses do ano toca nos finais de semana. “Faço parte de um conjunto e tocamos nas cidades da região. Nosso público-alvo é a terceira idade.”
O faturamento do sanfoneiro triplica nos meses de junho e julho. “Fico sentido de não poder atender a todos que me procuram, mas já tenho alguns clientes fixos.”