Qualquer tentativa de se reverter uma realidade, como a proposta do Grupo Pró-Bauru de revitalizar o Centro de Bauru, exige uma boa dose de paciência. A recomendação é de Marco Antonio Ramos de Almeida, presidente-executivo da Associação Viva o Centro, uma organização não-governamental (ONG) criada em 1991 e que desde então vem propondo ações e projetos voltados para a melhoria do centro da Capital paulista.
Almeida ressalta que, além das devidas proporções, as realidades de uma região central de uma megalópole como São Paulo e a de Bauru são bastante diferentes, o que inviabilizaria uma espécie de “transferência de tecnologia” no trato desta questão. “A experiência da nossa associação pode não ser válida para Bauru”, adverte.
O dirigente lembra o centro paulistano representa menos de 0,5% da área urbana da Capital, mas concentra 8% dos empregos, recebe 20% da população que se locomove, possui vários órgãos do governo (estadual e municipal) e conta com “espetaculares” equipamentos culturais. “Aqui (São Paulo), não cabe o termo revitalizar, porque vitalidade é o que não falta. Tivemos que nos organizar para requalificar a região”, explica.
Para Almeida, seria difícil imaginar um processo semelhante em cidades de menor porte, como Bauru, porque não é possível “se pensar” o Centro isoladamente. “Em São Paulo, dá para fazer planos específicos para a região central. Em cidades menores, o centro está mais integrado às outras áreas adjacentes”, explica o dirigente, que viaja todo final de semana para o Interior, onde tem familiares. “Um grande problema que percebo é que, nas cidades do Interior, a região central tem perdido sua identidade como local de encontro das pessoas”, avalia.
O dirigente reforça que a presença da moradia residencial é realmente fundamental para a reativação das atividades noturnas de uma região central, mas lembra que, antes de qualquer medida, os promotores desta discussão precisam ter acesso a dados reais.
“Não dá apenas para ‘achar’ que não existe moradia residencial em determinada região. Aqui mesmo na Capital muita gente tem a percepção que o Centro tem poucas moradias, mas temos algumas das maiores densidades residenciais da cidade”, revela.
“Agitadores”
Mesmo com tantas diferenças, o presidente-executivo da Associação Viva o Centro dá algumas dicas a quem quiser implementar planos de revitalização/requalificação da região central de sua cidade. Além de conhecer a realidade a fundo, é preciso diminuir a ansiedade de que a situação vá se resolver em seis meses. “Quando começamos, sabíamos que estávamos iniciando um processo de 20 anos”, conta.
“É um processo de longo prazo, que implica numa profunda transformação cultural e de conceitos. Mas o que acontece é que muitos se frustram porque a iniciativa ‘não deu certo’ em seis meses”, ensina. Almeida lembra que a Associação Viva o Centro está passando pela quinta administração municipal, mas que no início poucos a notavam. “Hoje, ganhamos credibilidade, a mídia nos consulta e divulga nossos estudos e todos os candidatos à prefeitura passam por aqui para mostrar propostas e assumir compromissos”, revela.
Uma outra recomendação é que as entidades que se decidem por este tipo de iniciativa jamais devem tomar a frente dos projetos a ponto de querer implementá-los, assumindo funções inerentes ao poder público. “É difícil uma entidade assumir uma ação, pois um único projeto consumiria toda sua estrutura”, explica.
Por isso, Almeida define a Associação Viva o Centro como uma entidade “agitadora”. “Nossa missão é colocar o Centro de São Paulo na pauta do dia, fazendo estudos e seminários. Queremos que o governo faça o plano, que o investidor invista, que a inteligência acadêmica pense. Nós devemos apenas organizar a comunidade do local para participar do processo”, ensina. “Enfim, a linha de atuação deve ser essencialmente na área da comunicação, com debates e geração de conhecimento”, completa.