Política

Esquerda do PT quer crescer com a crise

João Domingos
| Tempo de leitura: 3 min

Sob o impacto da crise política, que deixou o governo Lula acuado e armou uma nuvem de suspeitas sobre a cúpula do PT, as correntes minoritárias da legenda, mais à esquerda, esperam ganhar espaço no diretório nacional. Em setembro, 840 mil filiados vão às urnas em eleições internas para escolher seus novos dirigentes. Apesar da expectativa dos grupos menores, a ala do atual presidente do PT, José Genoíno, acredita que sairá mais forte da crise e conta com experiência maior para manter a sua hegemonia.

O deputado Chico Alencar (RJ), integrante da chapa de oposição, encabeçada pelo ex-deputado Plínio de Arruda Sampaio, prevê tempos difíceis para o Campo Majoritário - agrupamento de correntes moderadas que domina o partido e apóia cegamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O parlamentar enumera os dirigentes petistas hoje sob suspeição. “Pelo menos um terço dos eleitores acompanha os noticiários e vai perceber que a chapa do Campo Majoritário tem entre seus candidatos José Dirceu, Delúbio Soares, Sílvio Pereira e Marcelo Sereno”, provoca Alencar. “Eles terão de depor em CPI, no Conselho de Ética, na comissão de sindicância, e o petista vai ser informado disso”, completa.

Afastamento

Os efeitos da crise no PT serão profundos, prevê o deputado. “O eleitor diferenciado vai dar o voto consciente contra a estrutura da máquina que foi montada pela atual direção”, acredita Alencar. “Isso certamente vai resultar no crescimento da esquerda dentro do PT e também numa depuração partidária. Ninguém entende por que o presidente Lula não dá uma mexida, não muda a direção do governo. Se não fizer isso, corre o risco de afundar, porque o partido pode entrar na disputa eleitoral do ano que vem totalmente combalido.”

Segundo Alencar, as bases do PT percebem que o partido está diante de uma realidade inédita e perturbadora: “É só ligar a televisão para ver como nossos parlamentares estão acuados, porque sabem que parte das acusações tem procedência.”

Para o deputado, os investigados deveriam ter se licenciado antes de a crise atingir o nível atual. “As personalidades partidárias sob suspeita deveriam ter se licenciado. Se nada fosse provado, voltariam. Mas, ao permanecer em seus postos, levaram a simbologia da crise para dentro do coração do PT.”

Menos ferino, mas também crítico, o segundo vice-presidente do PT, Romênio Pereira, da tendência Movimento PT, diz acreditar no segundo turno entre sua candidata, a deputada Maria do Rosário (RS), e Genoíno. “Toda a questão que envolve as denúncias fará com que os eleitores do PT vejam a diferença entre as chapas e quem as integra. Como há citação de pessoas da direção atual nas denúncias, o eleitor vai votar diferente, vai verificar as propostas, a preocupação com os rumos do partido”, disse.

“Maria do Rosário é uma pessoa comprometida com a alma do PT, com os seus ideais, e isso é favorável a nós. As dificuldades enfrentadas hoje pela ala que dirige o PT farão com que o eleitor mude o voto”, aposta.

Experiência

Genoíno, por sua vez, critica os companheiros que apostam na turbulência atual para mudar o jogo de forças dentro do partido: “Acho deplorável essa torcida de alguns que querem aproveitar a crise no PT para tirar proveito eleitoral. Nós estamos mostrando que temos alternativas para combater a crise.”

Segundo o presidente do PT, é cedo para que as alas à esquerda prevejam seu crescimento nas eleições internas: “É melhor esperarem, porque estamos enfrentando a crise de maneira serena. Vamos sair muito mais fortes. Além do mais, temos experiência, o que os nossos críticos não têm.”

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