Política

FHC: ‘Crise não pode parar o País’

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 4 min

A crise política que o governo federal atravessa não pode dividir o País ao ponto de atrapalhar o seu desenvolvimento. A opinião é do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que esteve anteontem em Lins para visitar as empresas do Grupo Bertin. Segundo ele, é preciso cuidado para que as investigações que estão sendo conduzidas em Brasília não interfiram em outros setores, como a economia.

Fernando Henrique não poupou críticas ao PT e chegou a afirmar que o presidente Lula tem que parar de pensar na reeleição, concentrando seus esforços para melhorar o País. “O momento não é para falar em candidatura”, destacou. Ele também aproveitou a deixa para reafirmar que não pretende disputar um novo mandato presidencial no próximo ano.

Dois anos e meio após deixar o cargo eletivo mais importante do Brasil, Fernando Henrique Cardoso continua sendo o centro das atenções por onde anda. A sua rápida passagem pelo aeroporto de Lins, antes do embarque para São Paulo, atraiu uma multidão de políticos, militantes e populares.

Diante da insistência dos tucanos presentes, o ex-presidente subiu em um banco do terminal de passageiros do aeroporto e improvisou um rápido discurso para as pessoas que se acotovelavam no local. Logo após, foi saudado por seus militantes ao som de ‘FHC, que saudade de você’.

Fernando Henrique também concedeu uma disputada entrevista coletiva no aeroporto. A seguir, os principais trechos da conversa.

Imprensa - Como o senhor analisa a crise enfrentada pelo governo Lula?

Fernando Henrique Cardoso - Vejo a crise da mesma forma como todos os brasileiros. Nós achamos que é preciso mudar as coisas mais do que se pensava até há pouco tempo. Parece que esse sistema eleitoral e partidário está doente. É preciso uma opção mais saudável.

Jornal da Cidade - Na opinião do senhor, qual será o desfecho das investigações?

FHC - Eu espero que a partir de tanta podridão e de tantas coisas que nos deixam de coração partido, até com raiva às vezes, que tudo isso sirva de motivação para melhorar o Brasil.

Imprensa - A base governista tem defendido a extensão das investigações das Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) aos governos anteriores. O que o senhor pensa disso?

FHC - Podem estender as CPIs aos governos passados à vontade. Do meu ponto de vista, quanto mais passarem a limpo, melhor. Eu não tenho nada a esconder. O importante é que o País todo quer o que eu quero e o que todos vocês querem, que é passar tudo isso a limpo. Quem errou, que pague por isso, seja no meu governo, no governo anterior ao meu ou no governo atual. O Brasil cansou de malandragem. Se quiserem apurar o meu governo, que apurem também.

Imprensa - O senhor recomendou que o presidente Lula não se candidatasse à reeleição?

FHC - O que eu disse à Revista Exame é que, se eu fosse o presidente, nesse momento eu iria afastar a questão eleitoral e ver o que é importante para o Brasil. Só depois que a população estiver convencida que o seu chefe está pensando primeiro no povo e depois nele próprio é que pode haver uma saída para a crise. É claro que o presidente Lula irá escolher o seu caminho, mas se eu estivesse lá faria isso. O que ele vai fazer não é da minha alçada e não compete a mim, mas eu acho que o Brasil precisa pensar nos seus problemas fundamentais e atacá-los. Não é hora de se fazer eleição. Eu vejo, às vezes, muita dificuldade por parte de muita gente que está no governo de sair do palanque.

JC - Que reflexos a crise política pode trazer para o desenvolvimento econômico do País?

FHC - O País é muito forte. Acabei de visitar o Bertin, que é um grande grupo. Eles não estão parados. Ao contrário, estão trabalhando e exportando. Nós temos capacidade para investigar o que tem que ser investigado sem afetar o restante. Tem que se ir a fundo e ver quem é responsável, mas ao mesmo tempo o País precisa avançar.

Imprensa - O senhor acredita que outras pessoas, além do ex-ministro José Dirceu, deixarão o governo caso fique constatada alguma irregularidade?

FHC - Queira ou não, o presidente Lula vai ter que cortar, porque o País está olhando e está vendo. Qualquer que seja o partido, vai ter que cortar.

Imprensa - O PT deixou de ser pedra para se transformar em vidraça. Como o senhor avalia essa mudança?

FHC - Eu tive uma oposição muito radical, que não pensava no Brasil. O presidente Lula tem a sorte de contar com uma oposição que pensa no Brasil também. O PT foi ruim na oposição e parece que não vai tão bem assim no governo.

Imprensa - Quais as possibilidades do senhor ser candidato a presidente no próximo ano?

FHC - Não sou candidato a nada e tenho dito isso reiteradamente. O momento não é para falar em candidatura e sim para falar dos problemas do Brasil.

Imprensa - O senhor acredita que o presidente Lula tinha conhecimento desse suposto esquema de corrupção?

FHC - Eu não posso dizer isso. Ele disse que não sabia e eu espero que ele esteja falando a verdade.

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