A entrevista de José Genoíno, presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), ao programa Roda Viva, estava se encaminhando para um massacre: as evidências de corrupção ativa, de prevaricação, de formação de quadrilha, enumeradas pelos entrevistadores no decorrer do programa, eram tão expressivas que forçaram o ex-militante guerrilheiro a uma desesperada situação de acuamento.
Diante das evidências de que o PT recebeu dinheiro do publicitário Marcos Valério, avalista de um empréstimo bancário realizado pelo partido, Genoíno desconversou. No que diz respeito ao escândalo do “mensalão”, Genoíno se escondeu atrás do argumento de que é necessário esperar pelas investigações. Em relação à política de inchamento da chamada “base aliada” às custas de propinas e de distribuição de cargos de confiança e de chefias de estatais, Genoíno afrontou a inteligência dos debatedores (e dos expectadores) argumentando que o PT quase não indicou cargos de confiança nos últimos 30 meses.
Genoíno reclamou da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) porque esta decretou a quebra de sigilos bancários de pessoas que ainda não foram convocadas para depor, argumentando que isto fere o comportamento tradicional das CPIs. Faltou ao presidente nacional do PT explicar por que o governo quebrou a regra tradicional, segundo a qual a CPI tem - ou no relatoria ou na presidência - um político do bloco da oposição ao governo.
Colocado diante da evidência de que Lula da Silva lhe retirou o aval político (há poucos dias, num encontro de políticos latino-americanos de esquerda, Lula praticamente ignorou a presença de Genoíno ao seu lado), Genoíno realizou uma verdadeira jura de amor ao presidente da República. Só não mencionou que, no mesmo momento em que Genoíno era entrevistado, Lula da Silva estava reunido com José Sarney e Renan Calheiros (representantes da fina-flor do reacionarismo político brasileiro) para costurar a reforma ministerial. E, para esta reunião, o presidente do partido que governa o país, não foi convidado...
O desenrolar da entrevista parece indicar que Genoíno foi esmagado, certo? Errado, caro leitor! Paulo Markun, o moderador do debate, decidiu, ao final do programa, perguntar sobre a acusação de que Genoíno, no período da guerrilha, havia “entregado” os companheiros de luta sem que tivesse sido torturado. Genoíno aproveitou a deixa para enumerar alguns tipos de tortura, dando a entender que havia sido vítima deles. Assumindo a pose de vítima heróica, buscou (com algum talento histriônico) emocionar a audiência. Mas os brasileiros sabem que as lágrimas devem ser vertidas na novela das oito; no programa de debates exigem-se fatos.
Ney Vilela