Pesca & Lazer

História de Pescador: O pescador, o boi e a onça


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Este caso que vou contar, ou melhor, vou repassar para você leitor, na verdade me foi contado por Epaminondas de Lucena, um baiano porreta, alegre, humilde e meu amigo de longa data. Em tempo: esse caso é devéras incrível e inusitado e só vou narrá-lo por dois motivos; primeiro porque pescador não mente, e segundo, que em se tratando de sêo Epá (apelido de Epaminondas) então; nem sequer podemos imaginar que seja mentira, pois que além de pescador esse baiano é de um caráter ilibado, sem jassa, muito honesto mesmo.

Sua história chegou ao meu conhecimento por causa de uma abstinência. Eu explico: Sêo Epá não come carne bovina, e isso me deixava intigrado, pois baiano que não come carne é mais difícil de encontrar do que macaco que não come banana. Notando minha surpresa resolveu contar-me os motivos que o levaram à abster-se da carne. Eis a sua história...

- Quando inda morava em Caitité, interioô di Bahia eu era lôco pur pesca e quaje todas as tardes eu ia pa bera do córgo à procura da mistura pro armoço du dia siguinte. Nessa ocasião eu pussuia um boi di arado, muito manso i qui servia tomém di muntaria na farta du jegue e muita vez eu ia muntado em Gaitinha (esse o nome do boi) pa bera do córgo, e naquele dia assim foi.

Contece qui paquélas banda onde curria o córgo, tomém morava uma onça pintada qui vivia butano medo nas pessôa.

Nu iscuricê du dia, já cansado di pescá i cum o borná cheinho di pexe risurvi vortá pra casa. Ó xente, e cadê Gaitinha? Sumiu! Prucura daqui prucura dali i nada di achá Gaitinha, e as hora passano. Foi intonce qui disanimado da prucura vortei à passo mesmo prá casa.

Aperriado da vida com o sumiço di Gaitinha, num consiguia pegá nu sono só pensano nu qui havéra di te acunticido cum meu boi. Será qui a gatona tinha pegado ele? Eu num quiria querditá nisso pruquê na sua glória, póbi boi.

Já era madrugada arta e conformado ca perda du amigo, oço uns bérro instranho perto di casa. Digo logo, é Gaitinha ó xente! Curri pra fora pa confirmá a suspeita. Vixe mãe do céu, la tava meu boi quirido. Todo arranhado, é verdade, mas trazia inspetada nus chifre, e morta, a marvada da onça pintada qui tirava o sussêgo dus moradô da região. Quando vi aquilo chorei de emoção e na mesma hora jurei pra meu boi qui nunca mais ia cumê carne.

É purisso bichim qui nunca mais cumi carne di boi im siná di respeito i consideração à famia bovina pelo ato de bravura di meu Gaitinha qui morreu di véio e cum o titu de herói. E assim foi... Só qui pescano eu cuntinúo ô xente.

Zélio Povoa

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