Entre uma corrida e outra, no início da tarde de ontem o mototaxista José Luiz Sapata passava pela avenida Jânio Quadros, em Bauru, quando foi atingido por uma linha de pipa com cerol (cortante feito à base de vidro moído e cola). Por sorte, ele sofreu apenas um corte superficial em uma das mãos, mas se a linha tivesse atingido seu pescoço, a conseqüência poderia ser grave. Do outro lado da cidade, no Parque Jaraguá, Lucas Henrique Silva Souza, 11 anos, caiu da laje de sua casa quando estava atrás de uma pipa.
O menino despencou de uma altura de cerca de 2,5 metros, na segunda-feira, e precisou ser hospitalizado. “Ele disse que estava atrás da pipa, mas era acostumado a subir na laje. Não foi pior porque antes de atingir o chão caiu sobre o varal de arame, que amorteceu a queda”, conta Cléris Cristina da Silva, mãe do garoto.
Após a queda, como estava vomitando, Lucas foi internado na UTI do Hospital de Base para observação. Ontem continuava internado, mas já havia sido transferido para um quarto. “Aqui no bairro, a criançada sobe em muro e telhado atrás de pipa e tem outros, até adultos, que usam cerol”, comenta Cléris.
Foi uma dessas linhas com cortante que atingiu Sapata. “Quando vi (a linha) já estava enroscada no meu dedo da mão e no guidão da moto. Cortou meu dedo e a manopla”, comenta. Sapata acionou policiais da Base Leste, mas quando eles chegaram ao local não encontraram quem estava soltando pipa com cerol.
Após o acidente, Sapata alertou os colegas a tomar muito cuidado ao passar pela avenida Jânio Quadros, onde há quase três anos um outro mototaxista foi atingido por linha de cerol e sofreu um corte profundo no pescoço. “É um local aberto, onde a molecada gosta de soltar pipa e com cerol”, frisa Sapata.
O acidente deixou Salvador Rodrigues Júnior, coordenador do mototáxi onde Sapata trabalha, preocupado. “Nessa época de férias a gente fica preocupado, ainda mais agora com este acidente. O mototaxista fica muito vulnerável. Por isso pedimos aos pais que orientem seus filhos a não usar cerol”, cobra.
Ele também levantou a possibilidade de ladrões aproveitarem a brincadeira de soltar pipa para observar os quintais e depois furtar as casas. “Minha casa foi furtada há cerca de dois anos e depois me disseram que foi um rapaz que estava soltando pipa na rua. Quando a pipa cai no quintal, ele pula e depois rouba a casa”, comenta.
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Orientação da PM
Há pouco mais de um mês a Polícia Militar de Bauru iniciou uma campanha de orientação aos alunos de cerca de 80 escolas municipais e estaduais da cidade sobre os riscos do uso do cerol na linha de pipa.
O capitão Jorge Duarte Miguel, comandante da 1.ª Cia, afirma que o acidente de ontem é o primeiro destas férias a ser registrado em Bauru. Ele reforça a orientação aos pais de que observem seus filhos. O adolescente flagrado utilizando cerol em sua linha pode ser encaminhado para a delegacia, juntamente com os pais, para ser lavrado o ato infracional, baseado no artigo 132 do Código Penal, que discorre sobre o ato de colocar a vida de outra pessoa em perigo. Como é inimputável, o menor não será penalizado.
Mas seus pais podem ser qualificados no artigo 249 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por descumprimento do dever do pátrio poder, ou seja, por ter permitido que seus filhos brinquem com substância perigosa. Como penalidade, eles terão que pagar uma multa que pode variar de três a 20 salários de referência. Dependendo do caso, o menor poderá também ser penalizado com medidas sócio-educativas.
Diante da informação de que ladrões podem estar aproveitando a posição privilegiada de quando estão soltando pipa para observar bens para possíveis furtos, o capitão Jorge pede para a população estar atenta. “Não é porque um adolescente ou adulto está soltando pipa que se deve desconfiar dele, mas deve sim ficar atento”, comenta.