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Os rinocerontes


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O sonho de se construir uma nova nação com promessas de ressurreição aos pobres e oprimidos transformou-se numa farsa. O PT tinha um programa, trabalhado há mais de 20 anos, e acabou chegando ao poder em janeiro de 2003, depois de consagradora vitória nas urnas. O forte apelo de um ex-operário se eleger presidente da República encheu a mim, e a todo o povo, de esperança.

Com sua legenda de pureza e respeito à ética na política, o governo do PT acabou sufocado pelo próprio poder que, no Brasil, em vez de uma instituição venerável tem sido a máscara que esconde a corrupção, propinas e atos agressivos à moral administrativa.

Pensei - assim como todos nós - que o fim das mazelas havia chegado. Eis que, como na peça de Eugène Ionesco, os que vêm depois passam a agir como agiam os antecessores – transformam-se também em rinocerontes e passam a fazer parte da manada que deixa um rastro de destruição. A crise paralisa o governo. Há seis meses o Congresso Nacional não vota qualquer projeto e Lula dá uma Festa no Arraia do Torto e vai à Escócia para sair na fotografia com potentados de nações bem sucedidas.

A entrada de novos ministros não vai ser panacéia para cobrir tantos erros e omissões. O que a nação exige é a apuração rigorosa dos atos de corrupção e punição dos culpados. Mais ainda: que o governo aproveite o que lhe resta de mandato - quase 18 meses - para retomar o comando das ações e salvar um pouco da dignidade que lhe resta, se ainda sobrou alguma coisa. Vi na TV deputados e senadores do PT elogiando a conduta “serena” e “segura” de Marcos Valério em seu depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito. O que disse o acusado? Ser “um brasileiro normal”... Assim como eu e você que passamos no banco e sacamos 20 milhões de reais em espécie, com a maior facilidade. Gente como a gente que avaliza empréstimos de milhões para um partido político e paga R$ 900 mil a um procurador da Fazenda, somente porque ele divide conosco a mesma paixão pelos cavalos.

Os rinocerontes de hoje são iguais aos de ontem. Continuarão impunes como impunes ficaram aqueles que se beneficiaram dos achaques de Paulo César Farias. Até hoje a Justiça não foi capaz de encontrar centenas de milhões de dólares estorquidos dos empresários. A impunidade de PC Farias e do seu chefe Fernando Collor é uma vergonha. O último foi punido pelo impeachment, mas não criminalmente. E assim continuarão aparecendo êmulos e sucessores. Como diz meu amigo dr. Nelson Moreno, “a maior prova de que esse País é rico vem do fato de estarem roubando há 500 anos e o dinheiro nunca acaba”. O tráfego de influência em proveito próprio começa com Pero Vaz de Caminha que em sua carta a El-rei de Portugal, comunica o “achamento” da frota de Cabral e aproveita para pedir um empreguinho para o genro.

Fala-se em reformar a legislação penal, de maneira a considerar como crimes imprescritíveis e inafiançáveis os que se cometem contra o patrimônio público. Advogados competentes dilatam ao máximo o trâmite processual até que os crimes sejam prescritos - é o caso Maluf. Já perdi as esperanças: “Se os homens são bons, as leis são desnecessárias; se os homens são corruptos, as leis são inúteis” - alertava Thomas Jefferson há mais de 200 anos.

As profecias políticas de Ionesco, que apenas retratavam a sociedade dos anos 50 que, pelo menos no Brasil continua a mesma, continuou em uma outra obra do chamado “teatro do absurdo”, do qual foi pioneiro: “As últimas horas de um rei”. Patético. A história do final melancólico de um rei ingênuo, inocente e alheio às intrigas da corte. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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