O vice-presidente da seção paulista do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco-SP), Alexandre Miguel Lopez, 31 anos, adiantou ao JC nos Bairros que a cidade de Bauru será contemplada, em breve, com estudo semelhante ao realizado em obras de infra-estrutura da Capital e que detectou que várias delas, principalmente por falta de manutenção, estariam com seu “prazo de validade” vencido.
Lopez, que é engenheiro civil e proprietário de uma empresa de engenharia consultiva na Capital, reforçou que o principal objetivo do estudo “Infra-estrutura da cidade de São Paulo: Prazo de validade vencido” é o de alertar as autoridades e a sociedade sobre a urgência e a importância da adoção, por parte da administração pública, de uma política permanente de manutenção, com destinação de recursos financeiros, humanos e tecnológicos para essa questão.
“O trabalho feito na Capital foi um projeto-piloto que, devido à boa repercussão, será ampliado para as grandes praças do Estado, e Bauru deve ser contemplada”, disse. A certeza foi confirmada na tarde da última quinta-feira pela assessoria de imprensa da Sinaenco, após reunião dos dirigentes da entidades na qual o nome de Bauru foi incluído na agenda dos estudos. Não há, porém, data definida para o início dos trabalhos.
O Sinaenco, entidade fundada em 1988 e que congrega mais de dez mil empresas de arquitetura e de engenharia consultiva em todo o País, apresentou o trabalho contendo casos exemplares da falta de manutenção em obras no último dia 28 de junho, durante evento num hotel da Capital. Na ocasião, os autores do estudos chegaram à conclusão que aquele cenário complicado, que já traz inúmeros problemas à população e à economia brasileira, tem solução.
Com um diagnóstico sintético, apresentado por diretores e especialistas nessa área, a entidade buscava alertar a sociedade para a gravidade da situação e a importância de os governantes definirem políticas para esse segmento, além da criação de política de manutenção permanente. E, principalmente, com destinação de recursos orçamentários específicos para esse setor, nos três níveis de governo (federal, estadual e municipal).
Os relatórios com os problemas detectados em pontes, viadutos e córregos de São Paulo, além de rodovias brasileiras, foram entregues às autoridades que estiveram presentes ao evento 5º Encontro de Oportunidades e Negócios, promovido pelo Sinaenco e realizado na mesma data e local.
“Esta é a forma que nosso Sindicato encontrou para alertar as autoridades para essa questão fundamental para a sociedade brasileira: uma política de manutenção preventiva, com destinação de verbas regulares e serviços realizados antes do surgimento de problemas é muito mais econômica, evita sérios transtornos à vida dos cidadãos e das empresas e contribui para definir uma cultura importante à vida do País”, explicou o engenheiro José Roberto Bernasconi, vice-presidente de Engenharia do Sinaenco-SP.
A falta de investimentos faz com que a infra-estrutura comece a se deteriorar, com custo de reparação muito superior ao de manutenção. No governo federal, por exemplo, de acordo com dados do Orçamento Geral da União, o investimento em infra-estrutura apresentou queda de 40%, variando de 0,75% do PIB durante o governo FHC para 0,45% no governo Lula.
“O pior é que nem sempre o orçamento é totalmente aplicado, o que significa que o investimento em manutenção pode ser até menor”, explica o engenheiro João Antonio del Nero, presidente do Sinaenco-SP.
Além da repercussão positiva do trabalho entre os presentes ao evento, Alexandre Lopez destacou ainda a boa receptividade junto ao poder público. “A prefeitura (de São Paulo) não encarou o estudo como uma crítica, mas sim como uma contribuição”, avalia o vice-presidente do Sinaenco-SP. “A simples divulgação do trabalho na mídia da Capital trouxe resultados imediatos, com a liberação de uma verba de R$ 10 milhões para resolução de alguns casos preocupantes”, conta.
O trabalho
Segundo o Sinaenco, a maioria das obras-de-arte (como pontes e viadutos, por exemplo), rodovias, ferrovias, hospitais e escolas públicas, hidrelétricas e linhas de transmissão, entre outras, foi projetada e construída no Brasil na década de 1940, quando começam as grandes obras rodoviárias (vias Dutra e Anchieta, entre outras), siderúrgicas (CSN), hidrelétricas (Henry Borden, da década de 1930, e Ilha Solteira, do final da década de 1960).
Nos estados e municípios, sustenta o estudo, a situação seria ainda pior, devido ao fato de que boa parte da infra-estrutura urbana das principais metrópoles foi executada no início do século 20 e, assim, estaria com seu “prazo de validade” vencido há alguns anos. As conseqüências, portanto, começam a ser sentidas com maior intensidade nas áreas centrais - e mais antigas - de capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife, entre outras.
Galerias cedendo e ruas afundando, estradas esburacadas e desbarrancando, prédios quase desabando são sintomas de um mal que aflige os bens públicos brasileiros devido a uma doença comum dos administradores e da sociedade: é geral a crença de que essas obras, uma vez finalizadas, durarão para sempre.
A realidade, sustentam os técnicos, não é assim. Obras em geral não têm vida útil superior a 50 anos. Naturalmente que bons projetos, com execução correta e manutenção adequada, ajudam a superar esse prazo. O problema é que a junção desses três elementos é exceção na administração pública brasileira.
Prejuízos indiretos
Os custos indiretos com a falta de manutenção podem ser assustadores, em diversas outras áreas. O Sinaenco faz um cálculo simples, que transforma em números aproximados o prejuízo que uma cidade como São Paulo tem quando surgem problemas em uma ponte da marginal do Tietê, um dos principais corredores de automóveis e caminhões da Região Metropolitana de São Paulo.
Levando-se em conta que uma obra de emergência dura no máximo 180 dias e causa transtornos, com perda média de uma hora por dia com trânsito, desvios de rotas, os prejuízos são de mais de US$ 150 milhões. Na comparação do sindicato, tomando-se São Paulo como uma cidade basicamente de serviços, o prejuízo com a perda de arrecadação de Imposto Sobre Serviços (ISS) seria de US$ 7,56 milhões.
Ou seja, tomando como base o valor investido, em 1997, na recuperação de uma ponte como a dos Remédios, na zona oeste paulistana, de cerca de R$ 6 milhões, o prejuízo com a perda de arrecadação supera com muita folga o custo da obra.