Tribuna do Leitor

O dia seguinte, em Londres


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Londres amanheceu nublada, o que não é novidade, mas além do mau-humor matinal ao ter que desviar das poças e usar casaco pesado em pleno verão no hemisfério norte, havia na expressão das pessoas um ar diferente, pesado, de preocupação.

Um ritual se repetia a cada indivíduo que entrava no ônibus vermelho de dois andares: olhar em volta, receio ao subir as escadas, parece que todos queriam ficar em pé, próximos à saída de emergência. Na estação de metrô, atipicamente vazia, quem teve coragem para pegar o trem passava alguns minutos observando o quadro de avisos que indicava as linhas e estações suspensas por tempo indeterminado. Checavam os assentos, evitando estar perto de qualquer objeto e se o trem dava uma paradinha, todos se entreolhavam e paravam de ler o Metrô, tablóide do London Transport, distribuído gratuitamente em todas as estações, que estampava em dupla capa as cenas já vistas, mas não “digeridas”, do dia anterior.

Nada parecido com um dia comum, onde o eficiente Underground parece ser uma extensão das pernas dos londrinos que só em último caso tiram os carros das (quase inexistentes) garagens. No trem eles comem, lêem muito, dormem e conversam, brigam. É o retrato perfeito da diversidade da cidade onde “gentlemen” engravatados sentam-se ao lado de vovozinhas com chapéu, malucos tatuados, “patricinhas” intocáveis, hippie-chics e há até cachorro vestido de Sherlock Holmes. Quase tudo pode no “tube”.

Em menos de uma semana, Londres já havia sido manchete constante em jornais de todo o mundo por 3 motivos. Primeiro, a incrível mobilização causada pelo concerto Live8, no sábado, dia 2, que levou 200 mil pessoas ao Hyde Park, mais artistas e celebridades, visivelmente determinados a “fazer da pobreza história” (Make Poverty History). Aclamado, o maior concerto da história, o Live 8, aconteceu simultaneamente em vários países, sendo Londres a cidade principal e onde a idéia toda surgiu, tendo como idealizador o cantor Bob Geldof, que há 20 anos já havia chocado o mundo, no primeiro Live8, com imagens de pobreza e tristeza em países africanos, gerando uma onda de “caridade” que após todo este tempo não demonstrou mudanças substanciais na vida dessas pessoas.

Segundo, por Tony Blair, anfitrião do encontro de lideres políticos participantes do G8, acontecendo em Endinburgo, que em sua pauta prometeu discutir e acabar com a idéia de “jogar moedas em uma lata” e apresentar soluções efetivas para mudanças nos países sub-desenvolvidos, concordando em gradualmente abater a dívida externa desses países e também tendo como prioridade a discussão em torno do aquecimento global e mudanças climáticas.

Terceiro, pelo fato de que Londres vai sediar os Jogos Olímpicos e Pára-Olímpicos em 2012. Essa foi a primeira vez que Londres se envolveu em uma disputa. Apesar de ter sido sede em 1908 e 1948. Na votação dos 113 delegados do Comitê Olímpico Internacional, na quarta-feira, em Cingapura, Londres chegou à rodada final concorrendo com Paris, após ter desbancado Madrid, Moscou e Nova York.

Apologia à prática de esportes, a uma vida saudável. Algum positivismo em relação ao G8. Uma vontade de “mudar o mundo” embalada a Rock’n Roll. Após tantas boas noticias, o clima na cidade era de pura alegria, até a manha de quinta-feira, quando ainda não se sabe exatamente por que, indivíduos resolveram colocar um ponto final na vida de pelo menos 50 pessoas, ferir mais de 700, e deixar uma das cidades mais cosmopolitas, livre e democrática do mundo apavorada, horrorizada.

Ninguém consegue entender o motivo, como é sempre difícil diante do aclamado “terrorismo”. Foram franceses ciumentos com as Olimpíadas? Muçulmanos assustados com a liberdade? Bin Laden? Al Qaeda? Um bando de moleques inconseqüentes que constroem bombas no quintal? Leva-se um tempo a responder.

A única certeza é que os londrinos, que já passaram por isso e até pior, estão respondendo de uma forma triste, mas corajosa. Aos poucos a cidade volta ao normal, ainda recolhendo os estragos, mas já se vê e sente no ar que tudo vai ficar bem. A dúvida ainda paira. Por quê? Talvez as respostas venham, mas assistindo TV em um “pub” vazio, e observando as ruas ainda desertas, nada ilustra melhor o momento do que as palavras da Rainha: “Those who perpetrate these brutal acts against innocent people should know that they will not make us change our way of life” (aqueles que cometem estes atos brutais contra pessoas inocentes deveriam saber que eles não nos farão mudar o nosso estilo de vida). Peço um “fish’n chips” e bola pra frente, lá pra frente, nas Olimpíadas. (Luciana Franzolin - jornalista - RG 28.580.827-8 - Londres)

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