“A raspa de couro em Bocaina é uma commodity e todos seguem o mesmo segmento. Os coureiros se matam para ganhar mercado. Todo mundo trabalha, trabalha e ninguém tem lucro. E sem lucro ninguém sobrevive. Se o empresário colocar moda nesse produto, vai ganhar preço, vai ter um diferencial em cima de tudo o que todo mundo faz”, diz a diretora comercial do Curtume Polar Couros, de Novo Hamburgo (RS), Vânia Rauber.
Em sua palestra, na última terça-feira, ela explicou a importância de agregar moda ao couro. “Qualquer coisa diferente que for feita vai tornar o seu produto diferente e ele vai ganhar preço no mercado. Se você vende commodities, o que vai dominar é o preço mais baixo. Mas se aplicar uma resina, um transfer, qualquer coisa que faça seu produto ser exclusivo é você que coloca o preço.”
Ela lembra que, apesar de não trabalhar com raspa de couro, passou pela situação dos empresários de Bocaina. “Nós vendíamos commodities na minha região, que é o Rio Grande do Sul. Todos faziam a mesma coisa e brigávamos no mesmo mercado.”
A empresária resolveu investir no mercado da moda. “Ele é mais eletivo e te paga melhor. Só então comecei a ter lucratividade. Consigo viajar, buscar as tendências e agrego valor ao meu produto, que é reconhecido.”
Nessa cadeia, ela diz que ao agregar valor ao produto, o empresário qualifica melhor o funcionário e pode pagar mais. “Distribui melhor a renda, é uma cadeia.”
Para ela, o diferencial faz com que não haja briga. “Essa empresa que tem o produto exclusivo passa a ter um segmento á parte. É mais fácil. Não vamos brigar pela mesma fatia de carne.”
Na opinião da empresária, diversificar é o caminho. “Eu sugiro que em Bocaina os empresários partam para a diversificação dos produtos. Eles têm de qualificar a mão-de-obra. Já se cotizaram para comprar a matéria prima. Vão ter que fazer o mesmo para promover a venda. São pontos positivos.”
Brasil está na moda
O mercado de couro fora do Brasil está muito favorável, segundo Vânia Rauber. “O Brasil está na moda. Na Europa é possível ver muita gente usando havaianas, chinelo, para nós, mas para eles são sandálias. Eles compram tudo o que é brasileiro e diferente.”
Embora a Itália tenha um couro melhor acabado que o brasileiro, segundo a empresária, o couro do Brasil é bem aceito. “Temos de treinar nosso pessoal. O brasileiro tem capacidade e criatividade, claro que vai trabalhar melhor o couro, basta incentivá-lo. Tem que dar um chute inicial.”
Ela acha que a indústria química brasileira é muito pouco requisitada. “No Sul há várias empresas que possuem as técnicas. É só chamar um técnico que ele vem até aqui, sem custo algum.”
Para a diretora comercial do Curtume Cor de couro, de Curitiba, Giseli Bisolli, o empresário de Bocaina precisa buscar novas possibilidades para vencer o saturamento da indústria de EPIs. “Eles produzem a mesma coisa para um indústria saturada. Há várias possibilidades de mudanças. Eu sugiro, por exemplo, que eles usem a raspa de couro para fabricar proteção de braço para quem pratica esgrima.”
No Brasil, segundo ela, não há fabricantes. “É um produto muito diferente. No Brasil não há fabricantes e nem mercado consumidor, mas para a exportação pode ser um ótimo negócio. É um esporte elitista.”
Buscar novos mercados é uma atitude constante que deve nortear o empresário. “ Hoje, a Internet tem muita informação, o acesso facilita para quem compra e quem vende. Precisamos saber qual é o país onde se pratica esse esporte.”
Tem muita coisa a ser produzida com a raspa do couro. “Na luva de raspa de couro não é possível agregar valor, não é uma indústria rica. Sempre que se agrega valor está gerando emprego, trazendo divisas para o País.”
Outra sugestão dela é a fabricação de bolsas. “Em Jaú, uma pequena associação está usando a raspa de couro para confecção de bolsas. Eles fazem pequenos tapetes e depois dão acabamento em couro e se vende com valor agregado muito superior ao do equipamento de proteção”.
A empresária trabalha com couro pintado à mão. “Produzimos couro acabado e com isso abrimos novos mercados. Nosso couro é pintado à mão. Um artigo muito diferenciado. O cliente não te deixa por 30 centavos porque é um produto exclusivo. Lançamos quatro coleções por ano. A cópia é difícil, porque quando a pessoa está pensando, a gente já está com um produto novo.”
A venda também fica facilitada. “Você vende sem se preocupar com o preço. Coisa bonita é sempre mais agradável e tem uma boa aceitação.”